Um atestado de chatice

Outro dia discutia com um conhecido e cheguei a conclusão de que sou uma pessoa com quem é difícil se nutrir relacionamentos. Esse outro da conversa não emitiu argumentos para que eu me convencesse disso, apenas se fez um espelho das minhas atitudes amargas que, conclui, tornam a se repetir com certa frequencia ultimamente.

Notei isso também pela evidência do afastamento das pessoas de quem gosto, e a cada dia noto que ao atrair certos amigos, importantes à sua maneira, afugento alguns de outrora. Não darei nomes aos bois nesse caso, mesmo que o conhecimento público dos que foram magoados pelo rapaz rabugento que escreve nesse blog talvez fosse uma atitude mais nobre do que a de apenas escrever meu atestado de chatice.

Este é um pedido para que velhos amigos, magoados pelas minhas convicções, tentem reestabelecer as amizades com esse amargo rapaz, Thiago Bomfim. Aviso-lhes que tentativas do meu lado não faltarão.

Não vou me declarar inocente, mas muito do que me moldou nesse círculo de convivência cristã criou esse tipo de monstro, assim como fez a muitos outros que talvez não tiveram a mesma oportunidade de acordar a tempo de se desculpar.

Certo que há consenso de que certas ideologias devem ser combatidas com veemência, mas isso não significa que outras, exclusivas minhas e de poucos, devam ser defendidas em público.  Se for necessário discuti-las-ei em meus círculos de concordância, ou com policiamento severo de minhas palavras.

Livros de autoajuda e “liberdade de expressão”

De vez em quando dou uma lida nesses livros de autoajuda. Não porque é leitura obrigatória, nem por curiosidade: eles sempre me perseguem, seja numa citação, numa entrevista de alguém na TV. Na internet é que mais abundam.

Uma nova dos best sellers dessa família é o estabelecimento do princípio “Saiba ouvir” como uma “chave para o sucesso” (jargões que estragam qualquer frase). Receber críticas e aprender com outras pessoas, não é ruim. Péssimo é perceber que o “saber ouvir” adquiriu maior importância do que o “você tem liberdade para falar”.

No meio da revolução dos blogues e da  mídia social, caímos no engano de pensar que somos livres. Erramos ao pensar que a liberdade de expressão existe para nós. Toda a informação, que a maioria das pessoas produz, é na verdade a reprodução de um conteúdo que lhes foi passado por meio de um livro, de um filme, de uma aula.

Nota-se que o conteúdo dos blogues mais famosos analisa o gadget mais recente que você pode comprar, ou trata de assuntos que te dizem o quanto você precisa ser mais assertivo  e mais produtivo. Poucos falam do quanto você precisa ser crítico, do quanto você precisa filtrar  todo esse conteúdo desvairado que te chega por meio do Twitter, do Google Reader, do seu professor, do Fantástico e da Folha de São Paulo.

Todos ao mesmo tempo atraem sua atenção pedindo que você os escute, não é? Agora pense o quanto você lê versus o quanto você escreve e fala. Pense o quanto você filtra em comparação àquilo que você expressa com autenticidade.

Avalie o tipo de conteúdo que você lê. Perceba o quanto você é adestrado e automatizado para servir ao propósito dos que contam com a única “expressão” que vale dinheiro: seu trabalho.

The Long Fall Back To The Earth: Jars of Clay, caídos do céu

jars-of-clay-the-long-fall-back-to-earth-cover-capa-discoA crise não poupa nenhum dos que por esta terra passa. Para alguns, viver no meio de uma significa anular-se como pessoa e apenas se deitar num leito de angústia e dor. Noutra minoria os efeitos da crise são muito úteis no sentido de produzir exemplares excepcionais daquilo que chamamos arte.

Jars of Clay é uma banda que transita pela crise, fato que é transparente na sua produção. No turbilhão dos anos 90, década na qual Michael W. Smith tocava nos palcos perdendo pouco para as “másculas” performances de George Michael, os garotos de Illinois chegaram discretamente com o clássico Flood, contemporâneos a outras grandes promessas como Sixpence None the Richer e DC Talk.

Uma espécie de mensagem epicurista, divulgada principalmente pela doce voz de Leigh Nash do Sixpence, marca essa geração. Apregoa-se um viver alienado do que está a volta, uma música ideologicamente pobre, com pouco valor para as futuras discussões que Jars of Clay já iniciara discretamente nas suas canções. Diferenciar a mensagem de sua poesia, acredito, foi o que fez JOC durar até hoje, num processo evolutivo-qualitativo inquestionável. Diferente do Jars, as outras bandas fecharam as suas portas, com algumas tentativas de carreiras solo de sucesso duvidoso, salvo a exceção Toby Mac. Destaco que houve tentativas de volta do Sixpence na qual não vimos muito sucesso até agora.

É evidente que a banda de Dan Haseltine também compartilhou desse espírito carpe diem de sua geração. O maior expoente desse positivismo está no disco Who We Are Instead (2003).

Mas a crise sempre surge dos meios estáveis para inserir na calmaria o caos. E é exatamente isso o que acontece em momentos como Worlds Apart, incluída em um disco que, à primeira vista soa simples e político – Jars of Clay de 1995 – , mas que tem a sua harmonia quebrada por esta poesia que chega a lançar questões como “Did you really have to die for me?”, corajosamente questionando a outrora inquestionável crucificação.

Who We Are Instead é um marco do momento da carreira no qual a banda se desvencilha do pejorativo rótulo pop e expande seus domínios. Entretanto, mesmo sendo uma obra prima, esse disco se distanciou da identidade inquieta e perturbada que escapulira diversas vezes em composições que são evidentes expressões da crise existencial e, por que não, de fé.

Se ouvirmos The Eleventh Hour (2002) e em seguida Good Monsters (2007) poderemos em seguida concluir que acabamos de ouvir duas bandas diferentes, não fosse a inconfundível, amada e odiada voz de Haseltine. No disco de 2007 a banda trouxe a tona uma série de sucessivos desabafos que pareciam entalados na garganta, graças a todos os anos de bons rapazes. Criticam a igreja institucional, criticam a hipocrisia, questionam Deus pelos problemas do mundo em Oh MyGod e declaram sua impotência diante deles. É um disco intenso. Não inova, mas não decepciona, pois consolida, mais do que nunca, a visão do Jars of Clay como ativistas e profetas no sentido de que são denunciadores de questões ignoradas.

Em 2009, The Long Fall Back To The Earth mantém a identidade engajada e ativista do Jars of Clay. O pessimismo dá lugar a esperança novamente, só que dessa vez a esperança não atua ao descrever o lado bom das coisas. Trabalha denunciando as necessidades aguardando que se faça alguma coisa. O positivismo está na vontade de se despertar, por meio da arte, a ação para causas emergentes.

A banda continua provocando, como em Good Monsters. É só ler o título do disco, que faz referência a queda de Lúcifer, assunto quase intocável para uma parcela de cristãos. Mais incomoda o fato de que a metáfora é dirigida aos homens, aos americanos, aos cristãos! Qual não deve ser o sabor de uma descrição onde o homem é o próprio diabo?!

“Uma longa queda de volta para a Terra”, pode também significar um chamado para a realidade, para se ver as coisas como estão à nossa volta. A própria banda banda evidencia que esse segundo cair não foi de anjos, mas de homens que, perdidos no egoísmo, devem ser agora despertados para que vejam as necessidades que lhes gritam: na capa, com as roupas sujas e rasgadas, os integrantes são ícones de todos nós, homens caídos.

A primeira faixa The Long Fall é uma introdução, que começa com o belo piano elétrico escrito pelo próprio Dan Haseltine. A música evolui com um agregado de instrumentos, que se juntam um após o outro: sintetizadores, guitarra (sem distorção), baixo e bateria. Ao final a voz do vocalista Dan Haseltine apenas repete a frase The Long Fall/The Long Fall/ To Earth (A longa queda para a Terra). A faixa descreve uma demorada queda livre, que com a aproximação da Terra vai aumentando a intensidade (os instrumentos se juntando), até atingir o solo – a bateria destaca-se ao final, fazendo a junção com a próxima faixa. Segundo o vocalista, o instrumental descreve a euforia ao início de um relacionamento e o despertar para a realidade do viver acompanhado dia após dia.

Com um susto que demarca o final da queda (primeira faixa) Weapons muda o clima de introdução como se avisasse “caímos, acordem!”. Definitivamente não é uma faixa que classifique o disco do Jars of Clay como um disco com influências da década de 80, ao modo que muitos rotulam, mas também não o tira desse caminho. O sintetizador e o coro artificial ao final marcam bem esse estilão meio sujo de se lançar sons e mais sons ao mesmo tempo, e aí está o ranço oitentista. Mas a letra os colocam em paradoxo com as ideologias da década de outrora, uma vez que passa longe da alienação, longe da festa, pelo contrário é um chamado para uma mudança, para ver o homem como homem. No refrão alertam “Abaixem suas armas, Não há inimigos a sua frente” – “Lay your weapons down, There are no enemies in front of you” . Um duplo sentido demarca esse dizer: Jars of Clay alerta-nos para que vejamos a humanidade como humanidade, que abaixemos as nossas armas da desconfiança e da suposta prevenção que não passa de estresse. Outro sentido mais evidente está no apelo anti-guerra, assunto em voga nos Estados Unidos, e no resto do mundo. Segundo o tecladista, Charlie Lowell, essa letra é também um convite para que nos desarmemos de preconceitos, ao ouvir o disco.

Two Hands é mais uma daquelas crises características de várias músicas do Jars. O maniqueísmo já está evidente no título “Duas mãos” e no restante da letra. Esse formato de análise de discos incomoda pela síntese em que tem de se apresentar: essa é uma da músicas que merecem um comentário a cada verso. A raízes dos anos 80 mostram-se discretas nessa faixa, especialmente pelos vocais e pelo onipresente sintetizador com vozes que imitam as humanas. Toda a composição se constrói por meio do famoso paradoxo, recurso mais que conhecido dos poetas: “Uso uma mão para te por perto, e outra para te afastar para longe” , “Preciso sentir as cicatrizes e ver a prova”. Embora lembre o clima de Good Monsters, Two Hands é mais inocente ao analisar nossa dualidade, como explica Matt Odmark (violão).

Não sei que círculos cristãos o Jars of Clay anda frequentando, mas a música deles denunciam que tipo de teologia andam a pesquisar. Heaven é uma grande provocação a nossa ideia de paraíso que se resume basicamente em “Jesus, volte logo. E  ***** os outros não-cristãos”. Nessa faixa declaram que “o Paraíso não está longe, mas cresce dentro de nós, onde estivermos”. Um convite a uma vida de paz nesses nossos dias pela Terra. Em Heaven convenço-me da inspiração de Jars of Clay nas ondas dos 80’s, que estão mais para tsunami no nosso final de década, e quem ouvir o disco Perfect Symmetry do Keane saberá do que eu estou falando: teclados, guitarra que mais parece com sintetizador e aqueles vocais sincronizados e sem espaço para mais nada no meio da verborragia cantada.

Closer pecaria pelo pop “chicletento” e pelos efeitozinhos pega moça da voz de Dan Haseltine, mas nada que uma boa letra e um belo conjunto não compense. Essa música foi-nos apresentada ano passado no EP de mesmo título. Em The Long Fall Back ela traz novos detalhes na mixagem. Para quem não notou, até trompetes e um acordeom se escondem nesses arranjos, junto com a bateria seca que nem vou citar de qual década saiu. O detalhe principal e qualificador é a letra lotada de trocadilhos e de poesia da melhor qualidade. Dan Haseltine explica o seu processo de composição: escrevemos um primeiro refrão (“If you want my love, well you’ve gotta get closer to me…”) e depois escrevemos um outro bem melhor (“I don’t understand why we can’t get close enough…”).

Outra faixa do EP reaparece no novo disco: Safe to Land. Efeitos eletrônicos, acompanhados de guitarra e um violão preguiçoso, vão levando essa música até o final. Vozes bem elaboradas e um clima sombrio compõe todo o clima dessa canção. É a que deixa a metáfora do afastamento do paraíso mais clara. No verso “Not much grace left on a broken wing” aquela característica questionadora do JOC reaparece como em Oh MyGod e Worlds Apart: basicamente Safe To Land reclama do fato de estar longe de casa e pede uma segunda chance, acompanhada da promessa de que não haverá mais decepções (“I need your runway lights to burn for me/And if you say that I can come around/I’ll love you right, yea I won’t let you down, I won’t let you down”).

Desde a faixa anterior o disco foi preparando uma atmosfera mais reflexiva e o ápice dela está em Headphones. Como em todos os recentes discos da banda, temos a participação de uma doce voz feminina: dessa vez é Katie Herzig quem meio se mistura aos coros artificias do teclado (Baixe o cd da moça gratuitamente no Noisetrade). Uma canção que te deixa em êxtase, tamanha a qualidade. Fala da apatia, dos fones que estão ao ouvido bloqueando nossos sentidos para a verdadeira bagunça que está o mundo: conectados e desligados da realidade ao mesmo tempo.

Don’t Stop recupera o clima oitentista do disco, graças ao indispensável sintetizador fazendo o  seu digno trabalho. Os vocais, a voz duplicada de Dan Haseltine: tudo colabora para uma música que, sem vergonha, dá vontade de dançar mesmo, e dançar bem de perto sem pensar nos “dias e noites, que deixamos para trás”. Katie Herzig deixa sua breve participação nessa faixa também.

Boys (Lesson One) lembra outras músicas como Something Beautiful. Um belo arranjo de cordas, com um dueto que se completa perfeitamente. Lesson One é um conselho para quem anda com vontade de ser adulto rápido.

Você poderia estar ouvindo qualquer banda: DC Talk, Third Day ou Mercy Me, menos o Jars of Clay na faixa Hero. Não consigo relacionar essa música com nada que a banda tenha feito antes. Não estou dizendo que ela é ruim, pelo contrário é muito boa de se ouvir. A letra avisa da necessidade de “um herói para nos  salvar de nós mesmos”. No aspecto da novidade, em relação a já conhecida sonoridade do grupo, é que ela surpreende: mostra o quanto o Jars é capaz de inovar, mesmo depois de 17 anos tocando juntos.

Parece bem a letra de uma música do Derek Webb, sinceridade não falta! Bateria ritmicamente contagiante e o teclado com os efeitozinhos característicos do disco, estou falando de Scenic Route. Há teorias de trechos em que essa música é cantada ao contrário: quem se atreverá a rodar o disco noutro sentido?

There Might Be A Light é um tipo de música no qual banda começa a deixar saudades, declarando seu amor pela vida, do modo mais inocente de que é capaz.  Jars of Clay é das bandas que nasceram com muitos adultos de hoje, que de uma hora para outra descobrem que estão velhos, e que nesse envelhecer contaram com a trilha sonora maravilhosa desses rapazes do colégio de Greenville. A faixa conta com trompetes/trombones e uma bela guitarra, sem distorção, meio chorosa ao fundo.

O pop, bem elaborado, é o que conduz Forgive me. Uma música em que se vive a angustiosa tentativa de se pedir perdão com palavras bem elaboradas, que podem vir depois de um ano, quando já será tarde, uma vez que já se perdeu a pessoa amada.

Heart finaliza The Long Fall Back to The Earth com um sensação de que você está ouvindo outro disco. Uma música sobre a incompreensão de um  amor, nada romântico, no qual não há necessidade de “se escalar montanhas ou de se assinar papéis”. Amor de Deus, já oferecido a toda humanidade, sem qualquer iniciativa pessoal, apenas a de Jesus. Um sentimento de amor tão profundo, que sente-se não correspondido uma vez que que pede o coração de alguém que já possui o Seu amor: “Give me your heart, You already have mine”. Belíssima finalização para uma banda que coloca a mensagem de Cristo e do amor no centro de toda a sua ideologia.

O álbum foi produzido por Ron Aniello, conhecido por trabalhar com Leigh Nash do Sixpence None The Richer e com a banda Lifehouse. Nesse disco a banda volta para a Essential Records, gravadora antiga, da qual se separou por dois anos, com um álbum que marca mais que tudo a preocupação do Jars of Clay no viver bem nossos dias dessa terra, olhand0 para o próximo e para as suas necessidades.

Ouvindo The Long Fall Back To The Earth fica-nos uma boa sensação de perceber que Jars of Clay já toca por 17 anos juntos, sem qualquer sinal de estruturas prestes a ruir e nem qualquer tentativa de trabalhos solo. Uma banda que acompanhou a vida de algumas pessoas que leem isso aqui, não é?

É doloroso para um fã, mas terei que dar uma nota para o disco, tentando passar longe da minha parcialidade de admirador. Vou listar antes as notas de alguns trabalhos anteriores, para que fique claro o meu sofrer ao avaliar esse álbum:

  • Redemption Songs – 7,5
  • Who We Are Instead – 9
  • Good Monsters – 10
  • The Long Fall Back To The Earth – 9

Você pode ouvir esse albúm completo no Hear it First.

Comentando a fábula “O Lobo e o Cordeiro”

Uma das aulas que mais me interessam no curso de Letras é a de Latim. Conhecer a cultura romana é saber de um dos períodos onde o homem se consolidou como ser simbólico e cultural e ver também como velhos erros nos perseguem ainda nos nossos dias. Nesse semestre pesquisamos algumas fábulas de Fedro, notável escritor da literatura de Roma:

Ao mesmo rio vieram, compelidos pela sede, o lobo e o cordeiro.

O lobo estava mais acima e o cordeiro bem mais abaixo. Então o predador , incitado por sua goela maldosa, encontrou motivo de rixa: “Estou a beber e tu poluis a água!”.

O lanoso, tímido, responde:

“Como posso fazer isso de que te queixas, ó lobo? De ti para meus goles é que o liquido corre”.

Repelido pela força da verdade, ele replicou:

“Cerca de seis meses atrás, falaste mal de mim”.

O cordeiro retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido…”.

- Por Hércules!, teu pai é que me destratou!

Em seguida, dilacera a presa, dando-lhe morte injusta.

Escrevi esta fábula por causa daqueles indivíduos que oprimem os inocentes por razões fictícias.

Fedro. (Tradução de Luiz Feracine)

Fedro ilustra a curiosa situação na qual um lobo e um cordeiro vão saciar a sede, necessidade básica de ambos, em um rio.

O canino é a figura que ilustra o poder, o outro é conhecido, quase que universalmente, como símbolo da pureza e da inocência.

O conflito se inicia quando o lobo acusa injustamente o cordeiro de poluir a água que aquele está a beber.

Uma sucessiva série de argumentos infundados do opressor é refutada pelo acusado. A culpa inicialmente é creditada ao cordeiro e , depois, transferida aos seus antecessores.

Não tendo mais argumentos, o lobo dilacera o outro bicho, comprovando que a força dos poderosos não está no saber ou na justiça, no poder que têm apenas.

O valor moral da fábula, sintetizado por Fedro – “Escrevi  esta fábulas por causa daqueles indivíduos que oprimem os inocentes por razões fictícias.” – é atemporal. Os fatos se repetem em pleno séculos XXI, quando as leis parecem apenas ornamentos léxicos, e o que prevalece é o poder e a força em detrimento da sabedoria.

A vergonha da cruz

The Cross Fui criado em uma igreja pentecostal tradicional. Posso listar uma série de coisas que me desagradavam lá, mas nessa lista não poderia incluir, de modo algum, aquelas belas composições musicais, cheias de inspiração.

Uma música que muito me intriga é “Rude Cruz”. Quando criança, nas minhas aventuras correndo e sendo perseguido pela minha mãe no recinto de culto, não conseguia dar qualquer sentido àquele trecho em que se cantava “Eu aqui com Jesus/A vergonha da Cruz/Quero sempre levar e sofrer”.

Geralmente o lado protestante do cristianismo não fala muito acerca do sofrimento. Enquanto no catolicismo, valoriza-se toda a semana anterior à pascoa, tornando o mês e os sete dias anterior à comemoração um tempo de meditação e sacrifício, os evangélicos optam por comemorar apenas o Domingo de Páscoa. Não gosto de ritos obrigatórios, como a abstenção de certos alimentos na quaresma. Entretanto, o cristianismo pentecostal perdeu muito dos significados importantes da nossa raiz católica.

Falamos muito da ressurreição, da vitória da cruz e do nosso galardão eterno. Mas parece que, nas nossas teses, esquecemos de mencionar a vergonha da cruz.

Eu me envergonho por causa da cruz. Aparentemente, ela não é muito útil para mostrar o quanto sou bom. Mas ela é extremamente dura ao desnudar todas as minhas imperfeições de um homem mau.

Ela é mais vergonhosa por mostrar o quanto um homem pode amar. Ela é suficiente para me entristecer, para me despertar saudades, para me envolver com amor e compaixão.

Essa é a vergonha da cruz que eu quero levar e sofrer. Nunca a minha espiritualidade será tão subversiva a ponto de diminuir esse sacrifício maravilhoso. Nada fará com que minha convicção seja coerente ao explicar tanto amor expressado na morte de Jesus.

Comentando a letra: Jars of Clay – Closer

Essa é uma das músicas mais interessantes do novo disco do Jars of Clay. Vou apenas comentá-la parcialmente, já que as outras partes são bem explícitas.

I don’t understand why we can’t get close enough
I want your kite strings tangled in my trees all wrapped up
I don’t understand why we can’t get close enough
I’ll be the comets that are fallin’ from the sky you light up…light up

“Eu quero as linhas da sua pipa emaranhada nos meus galhos, todas presas”. É bem sugestivo esse trecho. Indica uma relação muito íntima e bem forte, costurada e, ao mesmo tempo, complicada (emaranhada) como qualquer relacionamento duradouro. Entretanto é melhor assim do que sozinho, né?

A pipa é o símbolo da liberdade: solta ao vento, presa por uma frágil linha, da qual pode se desvencilhar sem dar satisfações. Entretanto, emaranhada ao galho da árvore, a pipa acaba perdendo essa liberdade e, presa, ficará ali, numa simbiose mortal e sem volta. E a morte nesse sentido é bem interessante já que se morre para o resto de todas as coisas, e agora a vida não caracteriza um ser individual, mas dois que se completam. O retrato fiel de um relacionamento, no qual nem tudo é bom: há complicações no emaranhado do amor.

You’re my shirt, I an arm
I’m the tick, you’re the bomb
You’re the L and the V, I’m the O and the E, and we…
Am I speaking clearly?

Novamente a mutualidade e dependência desse complicado relacionamento se expressa nessa letra. Quando diz “Você é minha camisa, Eu sou um braço” o compositor declara que nessa relação ele se sente protegido e, ao mesmo tempo, sufocado.

O trocadilho – “Você é o L e o V, eu sou o O e o E (LOVE), E nós… Você está entendendo?” – é bem interessante. Diz que eles se completam, mas que são extremamente diferentes (vogais/consoantes). Ele, sutilmente diz que é descomplicado (vogal) e o outro é complexo (consoante). Percebe-se que o compositor tem um conhecimento interessante de Fonética, já que sabe da “descomplicação das vogais”, emitidas sem barreiras, e da complexidade das consoantes, que necessitam recorrer à algum outro órgão, além das cordas/pregas vocais (dependência) para que algum som seja emitido.

Uma bela letra que mostra a evolução de Jars of Clay na sua composição, que soa simples à primeira vista, mas que adquire novos sentidos perante um olhar paciente.

Uma versão dessa música numa rádio, com uma fã radialista empolgada.