Eu não gosto de religião é o novo lema da nação evangélica. A frase de efeito foi adotada tanto entre os neopentecostais extremistas, quanto em setores mais “liberais” e intelectualizados cujos membros, de alguma forma, possui/possuíram/possuirão algum pezinho na igreja.
Vou descrever de modo superficial algumas definições de “religião” e tentar explicar o tipo de pensamento incoerente que tal afirmação – “odeio religião” – contém. É importante conceituar as possíveis interpretações, para que se evite a defesa de uma coisa e o leitor concorde ou ateste o seu “ódio” a outra definição completamente diferente. Discutirei os quatro conceitos abaixo:
1ª definição – Religião é a crença na existência de forças superiores e sobrenaturais.
2ª definição – Religião é a manifestação da crença em forças superiores/sobrenaturais.
Usarei aqui um trecho de O livro das religiões, que é um guia panorâmico sobre as principais religiões escrito por Jostein Gaarder (autor de O Mundo de Sofia) em parceria com outros estudiosos das ciências religiosas:
O que é religião? É o batismo de uma igreja cristã. É a adoração num templo budista. São os judeus como o rolo da Torá diante do Muro das Lamentações em Jerusalém. São os peregrinos reunindo-se diante da Caaba em Meca.
3º definição – Religião é a virtude do indivíduo devoto à alguma força sobrenatural.
4º definição – Religião é a filiação a um sistema específico de pensamento ou crença que envolve uma posição filosófica, ética, metafísica, etc.
Vamos adequar o suposto “ódio religioso” ao primeiro dos conceitos enumerados acima e observar que tipo de pensamento resulta.
Religião como crença em forças sobrenaturais:
No primeiro caso, naquele em que a religião é a crença na forças sobrenaturais, o indivíduo que afirma odiar tal prática diz, em outras palavras, que “odeia que a outra pessoa tenha uma crença”. Pensamento incoerente, diga-se de passagem, já que odiar simplesmente pelo fato de não compartilhar uma determinada superstição ou crença, como quiserem, é simplesmente dizer que não é capaz de “amar” mais ninguém além de si, pois é impossível existir duas pessoas cujas idéias sejam completamente consoantes.
Pode se argumentar que tal “ódio” tem fundamentação racional (argumento que por si só soa incoerente), portanto é inconcebível que uma pessoa se entregue a tais práticas quando, empiricamente, a inexistência de forças sobrenaturais é irrefutável*. E desde quando uma vida que se paute por escolhas especificamente racionais é a única opção?
Percebi que esse post se alongaria muito, por isso resolvi dividí-lo numa série de 4 posts. Acompanhe os demais textos e, se gostar, não deixe de divulgar.
*Consultem um agnóstico sobre tal comprovada inexistência.

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