O verdadeiro criminoso dorme na sua cama e brinca com seus filhos

“Paz por meio de guerra é como pureza por meio da fornicação. Semelhante a dizer a alguém que matar é errado e mostrar isso com uma execução.”

Derek Webb

Exemplos como esse, clarificados nas metáforas da música do Derek Webb, nos dá a noção do quanto é simples o ensinamento de Jesus acerca de perdão.

O “olho por olho, dente por dente” simplesmente não funciona porque, ao punir um crime, o carrasco responsável pela pena acaba fazendo a mesma coisa que o criminoso. Isto pode parecer extremamente justo, mas se a finalidade da pena for a de reprovar a crueldade do crime perante a sociedade, por que motivo a punição é feita de modo semelhante à transgressão?

Você vive cerca de 80 anos num planeta de 4,5 bilhões de anos

Não sei se isso é mal de fase de crescimento infinita ou é aquilo que num reality show chamam “falta de personalidade”: mudo fácil de opinião. Ainda há pouco divulgava uma espécie de cristianismo que se engajava na causa de um mundo melhor. Pelo menos no meu caso, isso servia apenas como um crédito de carbono espiritual que pagava com assistencialismo a vil existência de uma humanidade mesquinha da qual faço parte.

É ilusória a idéia de que o homem tem crucial importância para a mudança do curso da história. E justamente o episódio no Haiti me fez pensar que a dedicação exclusiva ao trabalho de mudar o mundo pode se converter numa grande frustração: uma fatalidade, cuja responsabilidade não se dá nem a um ser terreno nem a uma divindade, destrói tudo aquilo que se levou anos para construir.

Não pense o leitor que este é um convite para que se deixe tudo de pernas para o ar, com um mundo bagunçado como está. Minha mãe ainda insiste na higiene da casa, mesmo sabendo que um vento soprando um monte de folhas pelo chão pode aparecer a qualquer hora. Nesse post, estou só desviando a conversa que te pede um trabalho extremado de construção da sociedade perfeita.

Há um tendência perversa das novas frentes evangélicas de glorificar um estilo de vida que promova uma sociedade alternativa, feliz, totalmente imune ao mal. Contudo, a boa intenção confunde nossos nossos olhos, esmaecendo o fato de que a nossa existência é curta, insignificante e vulnerável; se livres de toda a maldade humana, ainda não estaremos protegidos de um fenômeno natural como uma erupção vulcânica, um terremoto, um furacão ou uma tsunami.

Devo amar o próximo? Como a mim mesmo, ensina o Mestre. Mas esta não é a questão única e central de uma vida.

Não devemos nos submeter a prescrições de condutas que censurem a crise, que neguem a liberdade de achar que a nossa contribuição é minúscula. Acima de tudo: não é adequado o apego a nenhuma ideologia que nos impeça a crença de que o sentido da vida está justamente na eterna busca de sentido para a vida.

Avatar: símbolos, símbolos e mais símbolos

Avatar Eywa Este é um filme milionário que consumiu até o talo tudo aquilo que a indústria cinematográfica foi capaz de inventar. Mas não é só isso: James Cameron vai além com uma história muito interessante e pertinente. É daquelas produções que me faz ter esperança de que o dinheiro de Hollywood não termina sempre numa lata de lixo para promover o estilo de vida que andamos mantendo.

A história aborda o tema batido do imperialismo, disfarçado num outro planeta e em outro contexto. Ainda assim, fica claro que a crítica é para o estilo belicoso com que algumas nações do norte conseguem as coisas.

Ainda mais interessante é a oposição clara entre expansão científica e conquista armada: os ambientalistas são sempre os chatos dos filmes, mas em Avatar os nerds mandam.

O melhor foco desse filme está no que diz respeito à espiritualidade. Então vamos lá para mais um clichê de comentário que busca desvendar as metáforas transcendentais nas produções hollywoodianas:

  • Neoplatonismo - é uma corrente filosófica, cujo maior representante foi Plotino, em que se acredita na existência de um ser pelo meio do qual todas as demais coisas existem, como se fossem uma extensão dele. Chamam a este ser o Uno (pode ser chamado de Deus). Tudo se conecta ao Uno e existe por meio de sua luz. Na ausência dessa luz existe a escuridão (ou a falta de luz), tudo aquilo que não é iluminado. Em Avatar a presença do deus aparece em todo o planeta Pandora, exceto na parte em que os humanos implantaram o seu quartel general. No filme a divindade é a deusa Eywa. Ela se liga a toda floresta, espalhando sua luz entre os seres que lá vivem, inclusive nos humanóides azulados.
  • Espiritualidade primitiva – os fenômenos da natureza, a disposição dos animais, as forças que regem o planeta: tudo é creditado à deusa Eywa. Lembra bem os primórdios da humanidade, com a evidente diferença de que no filme admite-se que os fenômenos, mesmo que explicáveis, possuem sim uma conexão com um ser espiritual.
  • Vida após a morte – é bater na mesma tecla do Neoplatonismo que tem lá os seus pontos em comum com o cristianismo. Os nativos humanóides, Na’vi, acreditam que o ato de morrer não é nada além de retornar para a natureza a energia que se obteve dela. Ocorre também uma espécie de renascimento, num novo corpo, aperfeiçoado e conectado com Deus. Já ouviu esta história em outros lugares?
  • Conversão - o conhecimento científico é elevado como uma qualidade aperfeiçoada na raça humana. Contudo, a Doutora Grace Augustine,  que conduz as pesquisas com os humanóides, se vê obrigada a subjugar o seu conhecimento à uma experiência transcendental.

Há muito mais símbolos interessantes no filme, como o que está no nome do planeta (Pandora), mas deixo essa atividade para outros mais especializados nessas coisas de mitologia.

Fica uma recomendação que segui sem arrependimentos do Thomas McKenzie: vá ao cinema, se puder. Sua experiência assistindo Avatar em casa será muito inferior do que numa sessão em 3D.

Derek Webb: Como devemos votar ?

Kassab e Dilma Esse é um texto que o Derek Webb publicou às vésperas – um dia antes, para ser mais exato – das eleições americanas que elegeu o atual e, segundo a opinião de muitos, decepcionante presidente Obama. Há várias coisas que não estão no contexto do voto obrigatório a que estamos submetidos no Brasil, mas que são devidamente aplicáveis num voto nulo, numa justificativa fora do domicílio eleitoral, ou numa brincadeira à cabine eleitoral no feriado de Outubro, ainda mais num previsível segundo turno tucanos contra petistas.

Recomendo a leitura desse texto, que, na minha opinião, é um dos melhores artigos dessa década feito por um cristão, especialmente nesse tópico que é a política. Webb considerou este discurso tão essencial que o distribuiu gratuitamente com o disco Mockingbird Elections Edition, uma edição especial de sua obra prima acompanhada desse discurso lido por ele mesmo.

Como devemos votar então?

Parte 1: Uma breve afirmação no que diz respeito à consciência

Dependendo da época em que você está lendo isso, poderemos estar em qualquer lado de uma das eleições mais memoráveis na história recente do nosso país. Mas isso não importa, tendo em vista que este texto não se refere necessariamente à nossa atual eleição, e sim sobre como viver uma vida política honesta e íntegra. Ainda assim, não há tempo para sábias histórias ou introduções. Vou direto ao ponto: essencialmente, nossos problemas não serão resolvidos por um homem ou mulher éticos na Casa Branca. Não é bem assim que as coisas funcionam. Vivemos em uma democracia, uma forma de governo representativo, em que a nossa responsabilidade de amar e cuidar de nosso próximo é a mesma, senão maior. A mudança verdadeira e duradoura vem de conhecer e amar as pessoas que vivem nas casas ao lado da nossa, ao invés de depositar toda nossa expectativa e esperança na cabine de votação.

Entretanto, isso não quer dizer que não devemos tomar decisões com base em informações ao se envolver com o processo. Pelo contrário: se a sua consciência te permite, você pode até votar. Mais isto é muito complicado, especialmente numa escolha entre dois partidos* (e eu definitivamente não tenho tempo para isso).

Com toda a seriedade, quero ser muito claro nesse ponto: nunca é aconselhável, em qualquer decisão que você faça, violar sua consciência. Isso se aplica à essa eleição em que você poderá ter sérios conflitos morais com ambos candidatos, fazendo com que você se sinta como se estivesse votando de maneira defensiva ou para eleger o menor dos males.

Antes de ir além, deixe-me avisar que este pode não ser o seu caso. Além disso, entre o corpo de Cristo, poderia ser até pecaminoso se chegássemos às mesmas conclusões sobre como amar o nosso próximo melhor, por isso, há plena liberdade para opiniões diferentes sobre este assunto. Mas se estás nessa situação, eu tenho algumas sugestões:

1. Procure na sua bíblia algo que diga que você deve votar.

2. Se você não encontrar nada, ouça o que a sua consciência te diz. É para isso que ela está lá: para ser um guia e um farol vermelho quando você precisa tomar decisões significantes e difíceis.

Veja bem, não estou dizendo que você não deve votar.

Estou dizendo que, se a sua consciência está num conflito muito grande entre dois candidatos, você tem a liberdade de não votar.

Parte 2: Algumas objeções esperadas

Alguns podem dizer que não votar é dar o voto para aqueles que buscam usar o processo governamental com más intenções. Eu na verdade poderia argumentar de maneira completamente diferente. Ao votar, especialmente entre uma ou duas opções, você está dando um ‘sim’ e um ‘amém’ para a plataforma completa de um partido, o que provavelmente vai muito além da afirmação que você tentou fazer. Isto é ainda mais perigoso e menos nítido do que abster-se por completo. Nenhum partido poderá cooptar um voto que não foi dado.

Outros diriam: ‘Jesus disse “Dai a César o que é de César”, logo temos uma obrigação bíblica de voto.’ Claro que Jesus disse isso. Por isso eu pago os meus impostos e tento dirigir dentro dos limites de velocidade. Estas são algumas das leis dessa terra. Mas a minha consciência não pertence a César, por isso não compactuo com ele. César não pode me obrigar a violar a minha consciência. Votar é um direito legal, como carregar uma arma ou fazer um aborto, mas eu posso me abster de fazer qualquer coisa que, mesmo tendo direitos legais para realizar, contrarie minha consciência.

Alguns podem dizer que nós nunca iremos concordar por completo com a agenda ou plataforma política de alguém, desse modo, a espera por um candidato que se alinhe por completo com as nossas opiniões torna o voto impossível. Concordo completamente. Há muitas coisas sobre as quais eu posso discordar com um político que não correspondam necessariamente à uma crise de consciência. Portanto, há compromissos necessários e aceitáveis para o engajamento dentro de um sistema político, mas nunca quando eles passam por cima do cadáver de sua consciência.

Isto me leva à última objeção previsível: os nossos antepassados lutaram e até derramaram sangue para que nós tivéssemos o direito de votar. Mesmo que não haja nada óbvio nessa afirmação com que eu discorde, há um contexto a se considerar. Ainda maior que os sacrifícios dos nossos antepassados foi o sacrifício de nosso Pai celestial, que derramou seu sangue para despertar para ele uma fidelidade ainda maior do que a que damos à nação. Nós temos uma aliança eterna com o nosso Rei e o seu Reino que se constrói em nós e por meio de nós, superando qualquer outro compromisso.

No início da década dos anos 20 do século XVI, Martinho Lutero esteve notadamente de frente à uma assembléia na Alemanha, iniciando aquilo que conhecemos como Reforma Protestante. Em seu lendário discurso, Lutero se expôs à excomunhão e à morte para não trair a sua consciência ao dizer “Ir contra a consciência não é certo nem seguro. Não posso, nem irei me retratar. Eis-me aqui. Não posso fazer outra coisa. Deus me ajude.”

Estas questões de consciência são sérias e devem ser  consideradas. Tenho muitos amigos que estudaram as possibilidades dessa eleição em todos os aspectos e escolheram votar ou em Obama, ou em McCain, ou num outro candidato, e eu os apoio nisso. Reafirmo: somos diversos membros de um só corpo que segue a Jesus. Desconfiável seria se todos chegássemos às mesmas conclusões para problemas tão complexos. Novamente: talvez não haja conflitos de consciência para você nessa eleição, com todas as opções disponíveis. Mas se existe, sinta-se livre para não votar.

Nossa maior esperança não está nos políticos, nos poderes, ou no governo, mas num dia que virá para consertar todas as coisas. Nossa principal preocupação não é o sucesso, mas a fidelidade. Logo, se você acha necessário se abster do voto nessa eleição porque isto seria uma traição para a sua consciência, seja livre para permanecer fiel deixando a preocupação do sucesso e resultado para Deus. Ele, afinal de contas, foi quem criou os governos.