Há uma facilidade gigantesca para adquirir, armazenar, comprar, transferir, compartilhar, vender e produzir música na era digital. Mas essa infinita moleza produziu um efeito contrário: ficou extremamente difícil escutar música atualmente. O Eduardo Mano fez um post magnífico, daqueles que a gente lê balançando a cabeça rindo e concordando com tudo. Longe de querer complementar o post do Mano, vou aqui contar a minha experiência recente de retorno à música.
Já cheguei ao extremo de armazenar discografias completas de uma centena de bandas. Enchi um HD de 500 GB de música, mas não ouvia nada. Até que decidi quebrar esse ciclo terrível de dependência do download e do streaming. Alguns passos me ajudaram a mudar essa rotina.
Isso não é um guia. É apenas uma experiência pessoal que me fez observar novamente a música com aquele frescor e beleza que estava escapando com a quantidade de arquivos e pastas de MP3.
- Voltei a comprar discos – Nunca fui adepto do politicamente correto no que se refere ao consumo de cultura. Se tiver de fotocopiar eu fotocopio, se tiver de baixar eu baixo. Contudo, essa atitude é uma tremenda injustiça para algumas bandas que eu aprecio e acompanho com mais dedicação. Em 2010 passei a comprar os lançamentos dos músicos que mais admiro: esse ano comprei Derek Webb, Sufjan Stevens, Jars of Clay e David Bazan. Não é porque os artistas precisem desse dinheiro, mas é uma forma de dizer para eles “parabéns, continuem assim!”. Eu poderia congratulá-los de outro jeito, indo a shows, por exemplo, mas fica meio difícil quando você é indie demais para o Brasil. Sobre a grana: com a desvalorização do dólar, comprar esses discos na Amazon ou direto no site da banda fica mais barato do que a aquisição no nosso país.
- Coloco, no máximo, dois discos no tocador portátil – Modo aleatório (shuffle) é uma maldição: uma espécie de pirão de resto de comida indigesto. Não faz sentido nenhum, por exemplo, ouvir um disco como Illinois (Sufjan Stevens) no aleatório. Perde-se a sequência de cidades e a história da viagem que está inclusa no disco. Como um ser humano pode, por exemplo, ouvir The Dark Side of The Moon (Pink Floyd) no modo aleatório e dizer que curtiu o disco? Não dá, né? Para evitar essa feijoada podre musical, limito a quantidade de discos no meu tocador portátil: no máximo dois álbuns. Não vale colocar faixas separadas: só coloco discos completos.
- Paro para ouvir música – Eu sei que a nossa casa virou a fila do banco, o metrô da Sé, o trânsito da Washington Luís. Dá pra ligar um som para deixar esses momentos menos perturbantes, mas é bom reservar algumas horas para realmente ouvir um disco. Geralmente ouço na madrugada e no domingo à tarde: quando faço isso, a música parece ser algo de extrema beleza e importância.
- Tenho as músicas ou encarte do disco em mãos – Se tenho o disco…. belezinha: pego o encarte e faço o meu devocional musical. Se pirateei no uTorrent, uso o Pocket Mod pra fazer um encarte artesanal com as letras de música do disco que estou ouvindo. Isso amplia a experiência: observar detalhes como a rima da música, a escolha de palavras, a temática etc..
- Conhecer detalhes da produção do disco – Quando o disco foi produzido? Por quem? Quem tocou baixo/guitarra/piano/bateria? Participações especiais? Local de gravação? Saber tudo isso contribui muito para a experiência que eu tenho com o disco. Soube, por exemplo, que ao produzir o melhor disco do ano de 2010, The Age of Adz, Sufjan Stevens teve distúrbios psicológicos. Antes desse álbum, Stevens lançou o All Delighted People, EP em que, segundo sua gravadora, fazia uma homenagem ao apocalipse e um tributo ao tédio existencial. Essas informações me ajudaram a dar um valor gigantesco ao novo álbum, esquisito demais à primeira audição.
Há várias atitudes que podem nos reconciliar com a boa audição musical. Entre estas atitudes destaco a diminuição da quantidade de discos e o aumento do tempo exclusivo de dedicação a um álbum e artista. De 500 GB de músicas, restringi a minha biblioteca a 8 álbuns. O número de arquivos vai crescer, mas num ritmo bem mais lento e cuidadoso.
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