Um dos condicionantes para aquilo a que dão nome de felicidade é uma rotina com calculada estabilidade ou uma completa falta dessa mesma rotina, numa vida em que tudo é levado a movimentos de extrema surpresa e até de susto. Mas vamos considerar a rotina, que esta é mais fácil de se obter e manter que a surpresa.
Finais de semana podem ser terríveis ou agradáveis. Nestes dias em que despertadores não tocam, que jornais ficam mudos, que noticiário fala sozinho, não nos é dado o mínimo de rotina que mantenha os nossos pés no chão. Meu time vai ganhar? Que almoço será? Vai ter sol ou chuva? Vou estar só, ou com amigos?
O pior de tudo é que, num domingo, morando sozinho, tudo o que você precisa fazer é se arrastar pelo dia, com um filme aqui e um livro lá e alguma fritura que seu estômago, tardiamente, fará questão de te lembrar. E a hora não passa, nem com o horário de verão.
Nestes dias queria estar com a minha família, correndo atrás do meu sobrinho, que estaria correndo atrás das duas cachorras lésbicas, que estariam correndo atrás uma da outra ou de uma bola freneticamente movimentada pela mão de alguns de meus parentes.
Mas eu vou suportar até às 22 horas, quando o sono vêm, pra acordar na segunda, com o saudoso despertador a tocar, nessa casa pré-fabricada, de uma vida de felicidade condicionada.
Há coisas sobre a gente que não tivemos nem a ousadia de falar em voz alta naqueles momentos em que nos achamos na maior solidão. O que dirá de se compartilhar com o próximo.
Há coisas sobre o nosso temperamento ou sobre nossas escolhas que deveriam nos assustar, mas não assustam. Ficam lá, escondidas, sem nenhuma intenção de se manifestar. Uma parte de nós que aceitamos em muda resignação, mas que deveria ser gritada aos quatro cantos do mundo para que ninguém sofra com surpresas desagradáveis ou mesmo sejam vítimas duma manifestação explosiva dessa caráter que achamos estar enclausurado em prisão inacessível.
São coisas que, de tão boas, são ruins. Ou que, de tão ruins, são boas. São deuses e demônios, males e bens que na manutenção de máscaras sociais permanecem no limbo de nossas personalidades, sempre com o dedo engatilhado. Prestes a atirar.
Surgiu o assunto no Facebook e esta foi a minha resposta pra justificar. Desculpem-me o amargor, mas é isso mesmo que eu acho dessa banda que “ousa” chamar um disco de A Sociedade do Espetáculo:
Amigo pergunta: Vc não gosta? Pq?
Resposta: Porque é ruim demais. É uma competição pra ver qual música é mais pernóstica. É uma espécie de poesia programada, cuja letra, apesar de firulante, não traz grande mensagem em seu rococó irritante. Sabe este lance de se falar muito e dizer pouco: tá aí nesse grupo louco. Eu simplesmente não suporto. Música nacional tem que se livrar do chicobuarquismo, que nem ele [Chico] consegue ser mais Chico, pra ser leve, verdadeira e verdadeiramente interessante.
Música não precisa dizer muita coisa, aliás, não precisa dizer nada. Mas se há tal pretensão de ser messias e dizer novidades, por que não o faz e, se possível, com mais simplicidade?