Photoshop na celulite da igreja

Vejo um punhado de amigos numa missão de sucesso duvidoso: a de criar uma “igreja legal”. Eles podem tentar fazer o que for, mas essa é uma invenção de fracasso certo. Essa última frase soa como uma maldição – como se existisse… – mas é só uma constatação de uma grande verdade.

A criação de uma igreja divertida acompanha a mesma deturpada lógica de que universidade tem quer ser um ambiente agradável para se fazer amigos e, por meio dessa “atividade”, conseguir uma vaguinha na cadeira de presidente de uma grande companhia.

Por conta de uma série de fatores a presença da igreja cria tensões com os padrões de vida considerados ideais. O mundo considera, ou pelo menos finge considerar, correto contratar uma mão de obra baratíssima, escrava, em um país emergente para a produção desses gadgets em que você lê esse post e eu digito essa notícia. A igreja, como propagadora do amor de Deus, que é o próprio amor, deve se portar como denunciadora dos direitos desses trabalhadores explorados.

Mas o que vemos hoje: igrejas que sorteiam aquele telefone famoso com interface de toque para os membros de suas congregações, com o objetivo de passar uma imagem de que são/estão “antenadas” com as últimas novidades do mercado. Pesquisa sobre a procedência do produto e condições em que foi fabricado? Nenhuma.

O que não dizer dos vídeos bonitinhos, filmados em alta resolução, feitos por pastores bem vestidos? São extremamente jovens e atraentes as filmagens, é verdade! Inclusive eu gosto muito de algumas mensagens de um determinado pastor famoso de óculos.

Mas, vamos todos juntos parar e pensar numa coisa: não é forçado esse trabalho todo para tentar fazer Jesus parecer importante a essa geração de iPod? Não é muito Photoshop em cima desse monte de rugas e celulite que a igreja tem?

Boa parte dos meus amigos são ateus, quando estão longe de bebidas. Embriagados, estamos todos num confessionário coletivo, compartilhando nossas dores, incertezas e descrenças. Há uma tensão nesses conversas, um desconforto quando se toca no assunto fé. E é nesse ambiente de repulsa que sinto que as coisas estão andando bem.

Estranha-me quando a mensagem de Jesus é bem aceita como se fosse comida para mendigos ou sexo para adolescentes.

Sempre haverá uma tensão no evangelho. Não é um letreiro luminoso, ou site com design moderninho que resolverá os nossos problemas com essa mensagem que carregamos, e que consigo carrega uma tremenda responsabilidade de transformação desse mundo.

Quando leio algum escritor cristão admirável, como C.S. Lewis ou Chesterton, não sou capaz de imaginá-los numa imagem demasiado simpática e sorridente. Vejo-os como pessoas silenciosas e até problemáticas. Chesterton, por exemplo, padecia com sua obesidade que poderia ser seu espinho na carne, ou na gordura… Lewis tinha uma mulher doente que lhe dava muito trabalho. Homens de fé, é verdade, mas totalmente desligados da missão de fazer da igreja algo mais bonito.

Nossa fé tem que ser introspectiva, para nos fazer pensar, para nos por em crises. A verdade que carregamos contraria vários interesses do estilo de vida que levamos, por isso ela não é legal, ela não é divertida, ela não traz um sorriso estampado como se fosse uma mocinha da Rua Augusta.

É bem verdade que discuti um aspecto bem individual de fé nessa postagem, mas já falei demais de evangelismo nesse blog.

Fomos feitos para amar. Esse amor, que vem de Deus, deve brotar de modo natural de nossas atitudes. Amor que se veste com muita maquiagem, que se oferece de qualquer maneira passa a ser prostituição.

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Você citou aqueles que, para mim, são os grandes escritores cristãos do século XX. São menos ouvidos do que parece. Muitos adoram citá-los, mas poucos levam a sério de verdade. Se fossem melhor ouvidos, a igreja do nosso século seria diferente.

Lewis achava tolice a disputa entre os anglicanos renovadinhos e os conservadores, e não apresentava defesa em favor de um ou de outro – pedia tolerância, ao contrário.

Chesterton ria sim, mas de si mesmo. Mas como Lewis não tinha respostas simplistas. Talvez simples, mas não tacanhas. Chegou recursivamente à conclusão de que o que ele buscava sempre esteve ali. O gosto pelas novidades, por parecer “antenado” e moderno, não faz sentido.

Tiago,

Concordo quase 90%. Mais em função de Chesterton que era um cara absolutamente hilário. Não to falando nem de ortodoxia e nas suas viagens de volta ao mundo que retornaram ao mesmo lugar (brilhantemente, diga-se), mas de suas andanças de romance mesmo. Acho que ele se resolvia melhor do que parece a alguns… Voce leu algum de Father Brown?

Quanto ao photoshop – composição mercadologica do Evangelho – isto é natimorto. Sempre foi. Resulta em estrago sempre. Para a igreja e para quem compra que logo percebe estar numa canoa furada.

Evangelho é loucura para ser abraçada por loucos libertos mesmo. Abraçada como quem abraça um velho amigo de SEMPRE. Por gente de visão renovada pelo Espirito. PT Saudações. Todas as vezes que se marketeia, impoe ou conquista o resultado é ruina. Quem se deixa seduzir logo se ve enganado. Já o louco – bom sou calvinista – que enxerga Verdade não precisa de contextualização, renovo, contemporaniedade, etc.

Abração

Danilo

http://genizah-virtual.blogspot.com/

Li alguma coisa de Chesterton, biográfica, que me levou a esta conclusão. Mesmo sendo um escritor que abusava do sarcasmo, parece-me que ele tinha problemas cotidianos, principalmente relacionados à obesidade, mas não posso limitar a imagem do cara a isso.

Os últimos posts da Livraria andam rabugentos demais. Preciso mudar o tom: http://bit.ly/5uSsF

Thiago, curioso o seu post e boa analogia do Photoshop…

Igreja é Corpo de Cristo e Noiva de Cristo (usando imagens do NT). O Corpo ferido, desfigurado, partido, pelos pecados da humanidade. Corpo de Cristo não glorificado sempre terá marcas que não são muito belas, chagas profundas. Mas, apesar disso, o Corpo desfigurado é visto pelo próprio Cristo como uma Noiva bela. Milagre da Graça. Obra da misericórdia de Quem vestiu-nos com sua justiça ao tomar sobre Si nossa vergonha. O Cristo ressurreto apresentou suas feridas aos seus seguidores como prova de Ele era real. Talvez a Igreja precise apresentar mais suas feridas (e celulites) em vez de mascará-las, como prova de sua autenticidade… Talvez.

Quando não entendemos a natureza da Igreja e seus paradoxos, tentamos torná-la atrativa por meio de gadgets legais e miraculosos.

Seth Godin escreveu All Marketers Are Liars… Precisamos tomar cuidado para não fazer do título de seu livro uma realidade.

Um abraço.

Pois é, Sandro. Sob a perspectiva divina, a igreja sempre terá olhos ciumentos a observá-la com muito amor e misericórdia.

O nosso julgamento sobre nós é que anda superestimado. Precisamos arrumar o interior da casa. Não há reboco e remendo que resolva o problema de uma casa que não tem o seu interior arrumado.

Obrigado pelo link do blog lá no seu espaço.

Abraços!

[...] Thiago Bomfim escreveu uma postagem essa semana chamada Photoshop na Celulite da Igreja, comentando sobre algo que eu tenho pensado com uma certa frequência nos últimos meses: a [...]

Oi Thiago!
que saudade do seu blog, faz um pouco de tempo que não passo por aqui.
agora que estou de férias e um pouco ‘away’ dos livros, está dando mais tempo de vir pra net.

eu adorei seu texto e concordo com você.
a fé deve nos por em crises, sim, nos fazer refletir numa constante introspecção.

é uma pena que essa verdade tem sido esquecida, deixada de lado e até mesmo jogada no lixo por nossas igrejas.

Saudade de sua fiel companhia, Rebeca! Meu blog até se assustou com o retorno do pródigo e até colocou o seu comentário como spam. Já resolvi a situação :)

Pois é, Rebeca, esqueceram do “feche a porta” e inventaram um “escancare as janelas”, sem nem se importar com o que se tem a mostrar.

Urge, de novo, a pergunta: qual o sentido de ser igreja?

Sei que parece ser simplista, mas essa falsificação que fazemos nada mais é do que adaptar o que imaginamos ser igreja (atualmente a moda é mais ou menos a da web 2.0, ser uma ‘rede social’ de algum tipo de nicho – os antenados, os moderninhos, os 2.0, os cinéfilos, os musicófilos, os que gostam de repleple, os que não gostam, ou seja lá o que for a variante). É sempre revelador que enquanto lutamos contra a ‘aparência’ do mundo acabamos abraçando o ‘espírito’ do mundo.

então… não conheço esses papos de escritores ai, sobre o photoshop, é bem mais fácil chamar a galera para uma empresa lucrativa usando figurinhas bonitinhas, mesmo porque é publicidade, e em publicidade tudo é bonitinho oras, até imagens de missões de gente sofrida são…bonitinhas também… logo me pego a pensar que igreja é um grupinho de amiguinhos que cantam musiquinhas bonitas para um Deus, beleza, mas a descontração é no final da reunião, é um clube de amigos dividindo um propósito, curtindo um estilinho, seja de designisinho, ou do último cd extravagantizinhos lançado na sexta feira… é a mesma coisa que você faz com o twitter e seus amigos… e assim todos são felizes… podem compartilhar sua última tatuagenzinha feita, e ficar discutindo a cor da cueca de Jesus… Não pensa tanto Thiago… você pira! araço

Maravihoso cara, bela analogia e bem coerente!!!!
Obrigado por ser inspiração teológica em minha vida padrinho….
Abraços

Haveria de se usar photoshop se ao menos fosse possível com maquilagem esconder a grotesca imagem que a igreja tomou.

“Nossa fé tem que ser introspectiva, para nos fazer pensar, para nos por em crises”… Essa frase faz muito sentido pra mim, cara! hahah

Pois é, rapaz. A metanóia é uma transformação que só aparece no meio da crise.

Miquiceee, Miquiceeee

Abs!

Eu até entendi o seu ponto, mas se vc realizar Chesterton e Lewis utilizaram a ferramente de comunicação da época (livros) pra propagar suas idéias (maravilhosamente bem diga-se de passagem).

O modo de comunicação esta mudando com a internet, video, etc… E é a primeira vez no século que isso tem um custo mais baixo a acessivel a qualquer um.
E por que não divulgar o evangelho nestas novas mídias?

Será que o Chesterton não teria um blog?
Só pq ele tem uma linguagem mais sofisticada (pq não dizer atual pra época em que ele vivia)?

Imagine quantos diferentes textos nós teriamos se Chesterton tivesse o total acesso a livre publicação?

Tente neste momento ver as coisas de um angulo diferente…

[...] algum tempo escrevi um post que falava da obsessão que alguns líderes cristãos modernos adquiriram dessa cultura [...]

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