Portugal e Brasil: nosso curioso desacordo ortográfico

Contrariando algumas fortes convicções do estimado Professor Marcos Bagno, creio que há no português de Portugal alguma coisa que o torna muito belo na escrita. Os brasileiros podem ter sido agraciados com a sonoridade – Elis Regina, Nara Leão e Los Hermanos podem provar, com alguns momentos de interpretação duvidosos– mas, para os livros e a poesia, Portugal parece ter um trono que eternamente ajuntará uma multidão de súditos.

Aquele desprezo quase total dos portugueses por nosso uso corriqueiro de formas no gerúndio, como estou fazendo agora, para preferir o infinitivo, como estou a fazer agora, é uma diferença curiosa que me atrai muito nas saramaguices do José.

O Acordo, que só o é no nome, é extremamente benéfico para os futuros mendigos-educadores (como eu), que agora estão nos cursos de Letras, precisando de uma vaguinha para revisar ao menos as receitas da Ana Maria Braga. Entretanto, do ponto de vista cultural, é uma falta de respeito a essa bela diferença que há entre os textos de cá e os da lá.

As mudanças, que portugueses desdenham por boas razões, interferem apenas na grafia de algumas palavras, nada alteram no estilo de construção frasal. Ainda assim, perde muito da sua “identidade ortográfica” o país lusófono que consente com novidades discutidas em ambientes tão cultos como a Academia Brasileira de Letras, do qual o ilustríssimo Paulo Coelho faz parte.

Provoco o meu querido leitor a pegar qualquer livro de José Saramago, ou do moçambicano Mia Couto, e buscar nele algo que seja extremamente difícil a ponto de impedi-lo de continuar a leitura e, nesse exercício, não obter o êxito da compreensão geral da obra.

Para facilitar ainda mais o teste, copio um texto do Jorge Oliveira, que é um dos meus escritores preferidos na internet. A postagem a seguir é uma bela demonstração de domínio da escrita, que parece ser de nascimento nesses portugueses:

Já aqui tinha falado do Oliver, o hamster mais bonito do mundo. Um dia destes fui com as minhas filhas à loja de animais e elas convenceram-me a trazer mais duas pequenas hamsters branquinhas. Russas, dizem. Uma com lindos olhos pretos outra com reluzentes olhos vermelhos. Até comprei mais uma jaula. Os preços de saldo ajudaram à decisão (custa-me resistir a um bom negócio), mas no caminho para casa já estava arrependido. Afinal já tínhamos o Oliver, para que precisamos de mais 2 ratas?

Red e Black, foram os seus nomes. Eu sei, não é muito original, mas quem é que tem a inspiração Adâmica todos os dias? Com o passar do tempo, e já decorreu quase um mês, foram-se revelando bastante agitadas e algo agressivas. Empanturravam-se de comida e exalam um cheiro pior dos que os piores bisontes fedorentos. Lutavam uma com a outra, quase não nos deixavam aproximar e quanto tentávamos fazer-lhes uma festinha, rugiam como ferozes leões, tipo Paulo Bento no final dos jogos a falar da arbitragem.
Ontem foi o colapso. Guerrearam de tal forma que acabaram por se feriram uma à outra. É sempre assim. As minhas filhas desesperavam e antes que um raticídio se concretizasse, tomei a decisão de separá-las. Uma permaneceu na gaiola e a outra foi parar a uma caixa de sapatos, remodelada para ninho de mamíferos roedores. “Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?”
Era bom que os irmãos e as famílias se entendessem sempre, mas infelizmente tal não acontece. Não sei o que será o futuro da Red e da Black, mas não tem sido esta também a triste história de tantos irmãos, famílias, amigos e denominações protestantes?

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Esses acordos vão demorar décadas para serem completamente implementados. Gosto da sonoridade aberta e criativa do brasileiro. Estou em crer que os portugueses da Europa têm muito a aprender com o Português da América.

Um abraço

(Muito me honram as suas elogiosas palavras, amigo Thiago)

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