Análise: “Searching for God Knows What” de Donald Miller

Capa de Searching-For-God-Knows-WhatMeu gosto por literatura cristã é bem limitado. Admito que li pouco o “subgênero”, mas o pouco que li já foi um bom aviso para que eu não insistisse muito na atividade. Achar boa literatura cristã, hoje, é procurar agulha num palheiro.

É injusto esquecer dos grandes escritores cristãos, não é? Mas verdade seja dita, todo bom escritor, mesmo cristão, soube dar o devido limite à sua obra: a universalidade.

Também não posso chutar o balde e dizer que nada do que se faz hoje é aproveitável. Há aqueles que têm mérito mais pelo pacote do que pelo conteúdo, mas há outros que ainda sabem fazer mágica com palavras. Donald Miller é desses raros artistas que hiptoniza com suas palavras.

Acabei de ler Searching for God Knows What com a sensação de que vai demorar para eu ler algo tão sereno e apaixonante. Não é a minha primeira boa experiência com os escritos de Miller. O mesmo aconteceu com Blue Like Jazz (sim, o dos Pinguins). Mas foi com ceticismo e pouca expectativa que iniciei esta minha última leitura, já que o Fé em Deus e pé na tábua não foi lá grande coisa. Expectativa superada pois, novamente, Miller foi surpreendente.

Mesmo lúdica, a mensagem que o escritor afirma desde o começo é o farol que direciona a escrita. Todo o livro fala basicamente que cristianismo não é fórmula, não é moral, não é teologia, é, acima de tudo, um relacionamento. Como é de praxe, Miller mistura as suas histórias, seus traumas e surpresas, desventuras e alegrias para comunicar essa mensagem de fé baseada em relacionamento. E como faz isso bem! E “fazer bem” não é sinônimo de erudição, ou de retórica bem trabalhada. Donald Miller fala de modo hipnotizante, a deixar o leitor sedento por histórias em sucessão que não cansam. No fundo, o que nos atrai nos escritos de Donald Miller é a intertextualidade que ele faz da nossa vida com a dele.

Já vi muitas críticas acerca de Donald Miller. Uma delas é que ele fica em cima do muro quando fala do lado conservador da igreja. Isso é verdade, Miller não levanta bandeira nos seus livros e isso é extremamente positivo, pois é característico dele literatura leve, bem humorada. Tomar partido de velhas brigas só prejudicaria aquilo que ele faz tão bem.

Há bons momentos em várias partes de Searching for God Knows What, mas o paralelo entre o relacionamento de Romeu e Julieta e o nosso com Cristo encerra esta obra com muito bom gosto. É livro que deixa a sensação de quero mais.

Pena que, mais uma vez, a editora escolheu mal a temática da capa. Dessa vez não foi aqui, com Pinguins, mas lá, com o circo. Diga-se de passagem, o trecho que narra a experiência de Don Miller no circo é um pouco tedioso. Ainda mais triste é o fato de que o livro não está disponível em português.

Como aperitivo, deixo um trecho do capítulo dez, em tradução livre, para os leitores da Livraria. É só o Donald Miller, contando histórias dos outros:

Meu pastor e amigo, Rick McKinley, contou-me recentemente sobre um encontro que ele teve com um jovem pastor que estava plantando uma igreja numa outra cidade. No vai e vem da conversa, este pastor perguntou ao Rick qual era a hora de tirar da liderança uma pessoa que estivesse com dificuldade de compreender a natureza do ministério. Rick olhou meio confuso para aquele pastor.  “Tirar da liderança ?”, perguntou.  “Isso.” , o jovem pastor respondeu. “Temos que avançar, né? E se a pessoa não acompanha precisamos tirá-la.”

Rick respirou e riu “Cara, seu eu fosse tirar todo mundo que não conseguiu acompanhar o início da Imago Dei, não sobraria ninguém, nem eu! Você nunca vai construir uma igreja mandando as pessoas embora. Isso não é uma lanchonete, é o reino de Deus, e bons discípulos demandam tempo. Jesus é paciente até o fim.”

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