O “circo” de oração

Reza Oração Circo

Quando a igreja promove o Reino de Deus, ou seja, faz aquilo que deveria fazer, contraria veementemente os interesses de um estado laico e neoliberal. Quando se junta a ele, é só mais um braço do poder que oprime os mais fracos e fortalece os que já se beneficiam dessa organização.

As Missões dos jesuítas aqui no Brasil foram exemplo claro dessa oposição que existe entre estado e igreja – posso não ter sido claro no primeiro parágrafo, mas todas as vezes que eu me referir a igreja nesse post, estarei falando da comunidade de fé que promove o reino de Deus na Terra, a menos que citada em outro contexto.

As Missões no sul do Brasil (século XVI), foram, enquanto de lá não foram expulsos os padres, extremamente benéficas para os índios. Alguns podem argumentar que as ações não passavam de proselitismo puro, mas não podemos esperar algo muito diferente de um pensamento cristão daquela época. Entretanto, junto com a mensagem do cristianismo, os padres jesuítas trouxeram melhoria de vida para as tribos nas quais evangelizavam. Diferente da dominação das monarquias européias,  a Companhia agiu de modo pacífico, mantendo a autonomia e organização das tribos a cargo dos próprios nativos:

O governo civil era exclusivamente indígena. Consistia de um conselho eleito por votação, composto por três oficiais, três administradores, alguns auxiliares e os representantes dos bairros da Missão, todos sob a égide de um cacique geralmente hereditário.

Percebe-se que as Missões eram instrumentos de melhoria comunitária, totalmente desalinhadas com os interesses do Estado português.

Não preciso falar muito sobre os interesses de um governo neoliberal, é só olhar à sua volta ou colocar os olhos na janela do condomínio, contemplar a favela mais próxima, para ver a forma de governo que sustentamos. Porém, foi de suma importância desmistificar a imagem deturpada da igreja como o instrumento de dominação e representante oficial de um governo opressor. Esta não é a igreja, veja bem, é um estado camuflado de cristianismo.

Não se deve confundir o evangelismo da Companhia de Jesus com obras assistenciais iguais as da Igreja Universal ou da Igreja Renascer. Estas iniciativas servem  apenas para desviar os nossos olhos dos verdadeiros propósitos dessas corporações a que chamam “igreja evangélica”.

A suposta demonstração pública de fé que aconteceu na final da Copa das Confederações, louvada pelos evangélicos como uma glorificação do nome de Jesus via TV, é o cúmulo da coligação estado-corporação-igreja. Ali não se glorifica o nome Jesus: banham na lama a figura do salvador numa conquista de troféu que dependeu apenas de habilidade e técnica esportiva. Ali não se exalta o cordeiro ressuscitado, ostenta-se um saldo bancário milionário ou uma vantajosa transferência para um clube de futebol europeu.

A igreja brasileira deveria ter vergonha de ligar o nome de Jesus às suas práticas. Quando Kaká estampa em sua sujismunda camiseta um “I belong to Jesus”, imediatamente remete ao telespectador que esse pertencimento é condizente também com as imundícias dos líderes da Igreja Renascer.

O “circo” de oração montado no gramado merece toda a reprovação, não para elogio das práticas de uma sociedade secularizada como a européia, mas para que o nome de Jesus não seja misturado com  interesses pessoais de vitórias em partidas de futebol ou de brasões como o da CBF.

Não é correto proibir manifestações públicas de fé, porém, dentro da própria ética cristã, demonstração de fé é justamente a implantação do Reino de Deus, que é por sua vez, melhoria de vida e bem comunitário.

Missões não tem nada a ver com camisetas, sites bonitinhos, rodinhas de oração, aparições televisionadas, evangelismo ou testemunhos de conta bancária lotada. Nossa verdadeira missão é fazer da Terra em que estamos um lugar melhor para se viver, dar do muito que temos aos miseráveis a quem tudo falta, contrariando por completo a forma de governo político e econômico que nos pressiona.

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Biblioteca I – Julho

Começarei, a partir de hoje e publicarei semanalmente, uma lista das coisas que eu vou ler, ouvir, assistir e visitar durante a semana. Uma espécie de lifestream cultural organizado em posts. Farei isso todas as segundas-feiras para arrumar esses itens num único local, promovendo discussão de livros, filmes e coisas do tipo entre os leitores da Livraria. Objetivo grandioso, mas não custa tentar.

O nome da categoria será Biblioteca.

Esse será o formato e também a Biblioteca da semana I de Julho de 2009:

  • Gravura da primeira publicação orignal de Alice no País do Espelho Livro: Alice no País do Espelho – Lewis Carroll | Por diversas vezes li, ainda criança, Alice no País das Maravilhas. Os livros de Carroll são interessantes e te prendem na narrativa de modo irresistível, como poucos livros de ficção. Por conta da versão do Tim Burton para o cinema, que sairá em Março, resolvi ler Alice no País do Espelho, para fechar o ciclo das aventuras alucinógenas da menina.
  • Música: Michael Jackson – Number Ones | Nem mesmo citei a morte do cantor nesse blog. Sou meio desligado da sua obra, mas resolvi ouvir essa coletânea agora. Tem sido muito agradável aos ouvidos! Muita gente fez o mesmo que eu, só que com a desculpa de que sempre se derreteu de amores pelo fenômeno.
  • Filme: A Missão – Roland Joffé | Título recomendado pela professora de Literatura Brasileira do curso de Letras. Até agora nenhuma de suas indicações me decepcionaram, com essa não deverá ser diferente.

Segunda-feira tem outra listinha.