Se eu já pensei em “descrer” ?

Toda a minha crença em Deus se sustenta na falta de respostas e na dúvida que eu tenho dele.

Li essa expressão de Fiódor Dostoiévski outro dia e vi que o meu processo de crença se baseia na estupefação que tenho dessa coisa chamada existência, dessa sensação de solidão que tenho todo o tempo: "Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, mas nem sequer pode haver.".

É assim, meu caro: creio porque tive essa sensação de abismo angustiante entre eu e ALGO MAIS. Creio porque descreio e se descreio com o argumento mais forte, mais se faz necessária a presença de Deus como consolo para a minha tola convicção.

Resposta ao Thiago Mendanha no Formspring.

Você vive cerca de 80 anos num planeta de 4,5 bilhões de anos

Não sei se isso é mal de fase de crescimento infinita ou é aquilo que num reality show chamam “falta de personalidade”: mudo fácil de opinião. Ainda há pouco divulgava uma espécie de cristianismo que se engajava na causa de um mundo melhor. Pelo menos no meu caso, isso servia apenas como um crédito de carbono espiritual que pagava com assistencialismo a vil existência de uma humanidade mesquinha da qual faço parte.

É ilusória a idéia de que o homem tem crucial importância para a mudança do curso da história. E justamente o episódio no Haiti me fez pensar que a dedicação exclusiva ao trabalho de mudar o mundo pode se converter numa grande frustração: uma fatalidade, cuja responsabilidade não se dá nem a um ser terreno nem a uma divindade, destrói tudo aquilo que se levou anos para construir.

Não pense o leitor que este é um convite para que se deixe tudo de pernas para o ar, com um mundo bagunçado como está. Minha mãe ainda insiste na higiene da casa, mesmo sabendo que um vento soprando um monte de folhas pelo chão pode aparecer a qualquer hora. Nesse post, estou só desviando a conversa que te pede um trabalho extremado de construção da sociedade perfeita.

Há um tendência perversa das novas frentes evangélicas de glorificar um estilo de vida que promova uma sociedade alternativa, feliz, totalmente imune ao mal. Contudo, a boa intenção confunde nossos nossos olhos, esmaecendo o fato de que a nossa existência é curta, insignificante e vulnerável; se livres de toda a maldade humana, ainda não estaremos protegidos de um fenômeno natural como uma erupção vulcânica, um terremoto, um furacão ou uma tsunami.

Devo amar o próximo? Como a mim mesmo, ensina o Mestre. Mas esta não é a questão única e central de uma vida.

Não devemos nos submeter a prescrições de condutas que censurem a crise, que neguem a liberdade de achar que a nossa contribuição é minúscula. Acima de tudo: não é adequado o apego a nenhuma ideologia que nos impeça a crença de que o sentido da vida está justamente na eterna busca de sentido para a vida.

Uma observação sobre o David Bazan

David Bazan Algumas pessoas que passeiam aqui pelo blog tem olhado para o disco mais recente do David Bazan, ex-vocalista da saudosa banda Pedro The Lion, como algo abominável, uma afronta. Stephen Lamb escreveu para o blog Rabbit Room, no post A Look Back At Our Faves Of 2009, uma boa observação acerca do cantor/compositor que traduzo aqui. Ajuda a dar uma clareada nessa história toda que, como já disse, é um caminho muito comum na história de várias pessoas:

He grew up the son of an Assemblies of God music minister, and after walking away from his faith of his youth, came to realize that he was rejecting, not God, but rather the version of God he had grown up with.

Ele cresceu numa Assembléia de Deus como um dirigente de música e, depois de se afastar de sua fé na juventude, ele percebeu que não estava rejeitando Deus, mas sim uma versão de Deus com a qual ele cresceu.

Fica aqui uma música desse novo disco, um dos melhores de 2009, em que Bazan declara: “é difícil ser um humano decente”:

Notas de leitura: A Million Miles in a Thousand Years (2)

A Million Miles in a Thousan Years - Capa (Cover) Um livro excelente. Não há nada de muito novo, mas Donald Miller faz coisas muito óbvias sobre vida cristã serem muito dolorosas. Ouvimos tudo o que Miller diz todos os dias, mas não ouvimos como ele diz.

Donald Miller simula um relato pessoal quando na verdade está falando da minha história, da minha pequena história.

Estou profundamente agradecido por ter uma leitura dessa à disposição, mesmo que ela me seja tão incômoda.

A presença de Deus parece esmaecida, mas na verdade ela está lá o tempo todo, só que inserida numa realidade que fazemos questão de ignorar.

SPOILER

Can you imagine an informecial with Paul, testyfying to the amazing product of Jesus, sayng that he once had power and authority, and since he tried Jesus he’s been moved from prision to prison, beaten, and routinely bitten by snakes? (…) I think Jesus can make things better, but I don’t think he is going to make things perfect. Not here, and not now.

Análise: “Searching for God Knows What” de Donald Miller

Capa de Searching-For-God-Knows-WhatMeu gosto por literatura cristã é bem limitado. Admito que li pouco o “subgênero”, mas o pouco que li já foi um bom aviso para que eu não insistisse muito na atividade. Achar boa literatura cristã, hoje, é procurar agulha num palheiro.

É injusto esquecer dos grandes escritores cristãos, não é? Mas verdade seja dita, todo bom escritor, mesmo cristão, soube dar o devido limite à sua obra: a universalidade.

Também não posso chutar o balde e dizer que nada do que se faz hoje é aproveitável. Há aqueles que têm mérito mais pelo pacote do que pelo conteúdo, mas há outros que ainda sabem fazer mágica com palavras. Donald Miller é desses raros artistas que hiptoniza com suas palavras.

Acabei de ler Searching for God Knows What com a sensação de que vai demorar para eu ler algo tão sereno e apaixonante. Não é a minha primeira boa experiência com os escritos de Miller. O mesmo aconteceu com Blue Like Jazz (sim, o dos Pinguins). Mas foi com ceticismo e pouca expectativa que iniciei esta minha última leitura, já que o Fé em Deus e pé na tábua não foi lá grande coisa. Expectativa superada pois, novamente, Miller foi surpreendente.

Mesmo lúdica, a mensagem que o escritor afirma desde o começo é o farol que direciona a escrita. Todo o livro fala basicamente que cristianismo não é fórmula, não é moral, não é teologia, é, acima de tudo, um relacionamento. Como é de praxe, Miller mistura as suas histórias, seus traumas e surpresas, desventuras e alegrias para comunicar essa mensagem de fé baseada em relacionamento. E como faz isso bem! E “fazer bem” não é sinônimo de erudição, ou de retórica bem trabalhada. Donald Miller fala de modo hipnotizante, a deixar o leitor sedento por histórias em sucessão que não cansam. No fundo, o que nos atrai nos escritos de Donald Miller é a intertextualidade que ele faz da nossa vida com a dele.

Já vi muitas críticas acerca de Donald Miller. Uma delas é que ele fica em cima do muro quando fala do lado conservador da igreja. Isso é verdade, Miller não levanta bandeira nos seus livros e isso é extremamente positivo, pois é característico dele literatura leve, bem humorada. Tomar partido de velhas brigas só prejudicaria aquilo que ele faz tão bem.

Há bons momentos em várias partes de Searching for God Knows What, mas o paralelo entre o relacionamento de Romeu e Julieta e o nosso com Cristo encerra esta obra com muito bom gosto. É livro que deixa a sensação de quero mais.

Pena que, mais uma vez, a editora escolheu mal a temática da capa. Dessa vez não foi aqui, com Pinguins, mas lá, com o circo. Diga-se de passagem, o trecho que narra a experiência de Don Miller no circo é um pouco tedioso. Ainda mais triste é o fato de que o livro não está disponível em português.

Como aperitivo, deixo um trecho do capítulo dez, em tradução livre, para os leitores da Livraria. É só o Donald Miller, contando histórias dos outros:

Meu pastor e amigo, Rick McKinley, contou-me recentemente sobre um encontro que ele teve com um jovem pastor que estava plantando uma igreja numa outra cidade. No vai e vem da conversa, este pastor perguntou ao Rick qual era a hora de tirar da liderança uma pessoa que estivesse com dificuldade de compreender a natureza do ministério. Rick olhou meio confuso para aquele pastor.  “Tirar da liderança ?”, perguntou.  “Isso.” , o jovem pastor respondeu. “Temos que avançar, né? E se a pessoa não acompanha precisamos tirá-la.”

Rick respirou e riu “Cara, seu eu fosse tirar todo mundo que não conseguiu acompanhar o início da Imago Dei, não sobraria ninguém, nem eu! Você nunca vai construir uma igreja mandando as pessoas embora. Isso não é uma lanchonete, é o reino de Deus, e bons discípulos demandam tempo. Jesus é paciente até o fim.”

God Hates The World

Sabe aquele pastor para quem Derek Webb provavelmente fez a música Freddie Please? Pois é, esse pessoal do vídeo aí embaixo cantando o jingle da música da campanha God Hates The World é da igreja dele.

Esta é uma versão parodiada de We are the world, em que Deus usa os membros da Igreja Batista de Westboro para mandar a sua mensagem de ódio à humanidade, avisando que ela toda vai para o inferno.


Freddie Phelps
é um pastor americano que encabeça uma campanha de gosto duvidoso contra os gays de todo o mundo, incluindo os do Brasil.

Derek Webb gentilmente dirige essa mensagem na música Freddie Please:

Freddie can’t you see
Brother, you’re the one who’s queer

Freddie, será que não percebes?
Irmão, você que é o maricas


O amor é inspirador!

Via @cf_gomes