Tradução: Travis – Turn

Essa música foi gravada pouco antes da virada do milênio. Tem uma mensagem muito linda que menciona um “reino que está por vir”. A legenda foi inserida no vídeo em alta definição de uma apresentação feita para a BBC.

No fim já da primeira década desse novo milênio, pergunto-me: aprendemos a mudar?

O agridoce sabor da crítica

Pegue essa citação e aplique a outras áreas da sua vida, além do ato de escrever:

Uma crítica objetiva é valiosa, principalmente quando é dolorosa de ouvir. Não tenho dúvidas de que aprendi mais sobre a arte de escrever numa crítica incômoda do que num elogio agradável. Ela me incentiva a fazer melhor; o outro me faz pensar que já sou bom o bastante. É fácil notar qual dos sentimentos é mais produtivo.

Pete Peterson no Rabbit Room

As críticas que o Adriano, o Teo e o Júlio fazem contra (ou em favor de) esse blogueiro de temperamento hostil, fazem dele uma pessoa melhor, ou menos ruim. Obrigado pelos puxões de orelha, amigos.

Biblioteca II

Tem mais um monte de coisa para essa semana: vinho na casa de amigos, disco novo do Derek Webb e alguma surpresa no trabalho.

Veja outras bibliotecas.

Boa semana!

Por que eu vou aos lançamentos de livros?

Mia Couto Antes de Nascer o Mundo Capa Cover Estive hoje no lançamento do novo livro de Mia Couto, escritor de um país com 11 livrarias: Moçambique. Imagino os tipos de pensamentos que os leitores da Livraria nutrem a meu respeito, quando me observam noticiando as minhas idas a esses locais: “uma verdadeira tiete de escritores, maria celulose!”.

Em primeiro lugar, preciso esclarecer que esses eventos high end user são raríssimos na minha agenda de peão e estudante de Letras. Lembro-me só de dois: Saramago e o de hoje. Depois, preciso deixar bem clara a minha atitude perante essas pessoas que escrevem livros: não vejo nada de superior neles. Seu talento é encarado por mim apenas como uma dedicação imensa ao ato de escrever, que para alguns geram bons frutos e para outros apenas bons lucros.

Entretanto, visitas a lançamentos de livros são úteis para que eu reafirme o verdadeiro lugar desses escritores: o de homens. Mia Couto hesita, pensa, erra. Juro que, da segunda fileira de onde ouvia a entrevista, parecia que era feito de carne e osso. O branco que muitos escritores dizem ter, visitou a fala mais que às folhas. Toda a visão de ícone que porventura possa ter criado acerca da genialidade de um fazedor de livros se desfaz quando tenho a oportunidade de ouví-lo.

Podes pensar que desprezo o talento para o romance moldado no escritor, mas não é disso que falo. Cabe ainda mais a congratulação, posto que de material humano provenha excelente arte. Porém, não me verias numa fila de autógrafos, tanto pela fadiga, quanto pela inutilidade do ato.

Mas qual a diferença entre receber o autógrafo e ouvir a palestra? Na primeira atitude cria-se um deus, consciente de seu poder, riscando sua criação com letras horrendas. Na outra situação ele é um homem sem qualquer poder, mas com toda a espontaneidade de um criador.

Devo dizer que Couto é espirituoso e consegue simpatia de leitores com facilidade. Como naquelas avaliações que fazem do risco-país, concluo que, numa primeira impressão, o artista moçambicano me deu bons motivos para investir num de seus títulos.

Um comentário breve de Mia Couto no meu canal do YouTube:

Compre o livro Antes de Nascer o Mundo de Mia Couto.

Devemos ter muito cuidado ao criar deuses, pois os poucos que temos, verdadeiros ou falsos, já nos trazem problemas e apuros demais.

Estudantes de Letras podem agora alcançar o sonhado posto numa redação de jornal?

Longe do burburinho dos blogues e do Twitter, pois dessas fontes me afastei durante os últimos dias, estive a pensar acerca do futuro dos cursos de jornalismo e sobre quais seriam os primeiros profissionais que poderiam substituir os dessa área.

A exigência do diploma já é ignorada há tempos pela imprensa privada e, ultimamente, raros postos tendo a graduação como requisito aparecem em concursos públicos. A falta de obrigatoriedade do curso terá como consequência a desvalorização dessa formação nas universidades, tornando-a mais barata nas faculdades pagas e menos concorrida em universidades públicas.

Perde muito o recém-formado jornalista, mais ainda os que estudam agora. Ganha muito todo aquele que domina a arte da redação e um assunto específico, pois não se explora tudo ao mesmo tempo sem ser medíocre em alguma coisa : economia, política, arte, esportes.

Estará o leitor estudante de Letras interessadíssimo nessa novidade, já arquitetando sonhos grandiosos, e, talvez, já até abandonou essa postagem para escrever sua primeira crítica para um tradicional jornal da cidade. Você, amante da língua, que continuou a ler, receberá uma péssima notícia: suas chances de publicar em um jornal aumentaram de modo insignificante, podem até ter diminuído, na verdade, perante a ampla concorrência que agora assola tão célebre posto de trabalho.

Deves imaginar que, por ser um bom aluno duma universidade renomada, tens também um passaporte para qualquer redação consciente o bastante para reconhecer o seu talento magnífico. Não caia nesse engano. O estudante de Letras já entra na universidade com um destino que o levará por caminhos tortuosos. Sua trajetória acadêmica já começa mal: dados do maior vestibular do Brasil, FUVEST, apontam que as melhores dissertações são dos ingressantes dos cursos de Medicina e Direito.

Um aprendiz da arte da escrita terá, em média, de 3 a 4 anos para concluir o seu curso, enquanto os futuros médicos e estudantes da lei viverão enfurnados nas bibliotecas por uma metade de década, no mínimo. Mesmo que o estudo em uma faculdade de Letras seja direcionado ao conhecimento da norma culta da língua e do ofício do bem escrever – ou análise do último – outras áreas criam profissionais que adquirem, numa espécie de osmose, a habilidade da expressão escrita. Em outras palavras: tem uma porção de gente que é capaz de desenvolver textos melhores que qualquer presunçoso estudante de Letras.

Ademais, devemos destacar a perversa adequação da faculdade ao mercado. Em um curso regular, um estudante de Letras terá mais contato com uma língua estrangeira, quase sempre o inglês, em detrimento de estudos e pesquisas relacionadas a Literatura Brasileira ou Portuguesa. Se és um universitário, compare a quantidade de aulas de literatura com o número daquelas relacionadas ao idioma estrangeiro que foi escolhido na sua graduação.

E qual é a consequência disso? É nos estudos literários que um aluno conhecerá modelos ideais de escrita e é no conhecimento dos períodos literários e suas peculiaridades que deslumbrará os horizontes da crítica. Se uma graduação despreza estes aspectos, está destinada ao fracasso de criar um profissional sem visão crítica de habilidade medíocre para a redação. E o que uma pessoa dessas fará num jornal?

Comentando a fábula “O Lobo e o Cordeiro”

Uma das aulas que mais me interessam no curso de Letras é a de Latim. Conhecer a cultura romana é saber de um dos períodos onde o homem se consolidou como ser simbólico e cultural e ver também como velhos erros nos perseguem ainda nos nossos dias. Nesse semestre pesquisamos algumas fábulas de Fedro, notável escritor da literatura de Roma:

Ao mesmo rio vieram, compelidos pela sede, o lobo e o cordeiro.

O lobo estava mais acima e o cordeiro bem mais abaixo. Então o predador , incitado por sua goela maldosa, encontrou motivo de rixa: “Estou a beber e tu poluis a água!”.

O lanoso, tímido, responde:

“Como posso fazer isso de que te queixas, ó lobo? De ti para meus goles é que o liquido corre”.

Repelido pela força da verdade, ele replicou:

“Cerca de seis meses atrás, falaste mal de mim”.

O cordeiro retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido…”.

- Por Hércules!, teu pai é que me destratou!

Em seguida, dilacera a presa, dando-lhe morte injusta.

Escrevi esta fábula por causa daqueles indivíduos que oprimem os inocentes por razões fictícias.

Fedro. (Tradução de Luiz Feracine)

Fedro ilustra a curiosa situação na qual um lobo e um cordeiro vão saciar a sede, necessidade básica de ambos, em um rio.

O canino é a figura que ilustra o poder, o outro é conhecido, quase que universalmente, como símbolo da pureza e da inocência.

O conflito se inicia quando o lobo acusa injustamente o cordeiro de poluir a água que aquele está a beber.

Uma sucessiva série de argumentos infundados do opressor é refutada pelo acusado. A culpa inicialmente é creditada ao cordeiro e , depois, transferida aos seus antecessores.

Não tendo mais argumentos, o lobo dilacera o outro bicho, comprovando que a força dos poderosos não está no saber ou na justiça, no poder que têm apenas.

O valor moral da fábula, sintetizado por Fedro – “Escrevi  esta fábulas por causa daqueles indivíduos que oprimem os inocentes por razões fictícias.” – é atemporal. Os fatos se repetem em pleno séculos XXI, quando as leis parecem apenas ornamentos léxicos, e o que prevalece é o poder e a força em detrimento da sabedoria.