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by Thiago Bomfim
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Notas de leitura: To Kill A Mockingbird/O sol é para todos
Depois de ver a lista de livros que podem fornecer algumas pistas acerca dos rumos de Lost, depois de achá-lo em inúmeras listas dos melhores do Século XX, depois de recomendações dum gringo entusiasmado, depois de dezenas de “nunca ouvir falar”, finalmente comecei a leitura de To Kill a Mockingbird, de Harper Lee.
É um clássico da literatura norteamericana, com tudo aquilo que ela possui de local e universal – segundo o que se diz. Estou ainda nas primeiras páginas e, por isso, pode ser um erro fazer um comentário tão precoce. Mas vou me arriscar nessa nota de leitura. Estou entusiasmado já às primeiras folhas mesmo…
É muito interessante o modo como Atticus explica uma questão de moral da população de Maycomb para a garotinha Scout. Olhe só como a própria menina narra a explicação do pai:
Ele disse que os Ewell eram membros de uma sociedade exclusiva, constituída só de Ewell. Em determinadas circunstâncias, a gente comum sabiamente concedia-lhes certos privilégios através do simples expediente de fechar os olhos a algumas de suas atividades. Por exemplo, os Ewell não tinham de ir à escola. Outro exemplo: o sr. Bob Ewell, o pai de Burris, tinha permissão para caçar e montar armadilhas fora da estação.
- Atticus, isto está errado! – exclamei.
Em Maycomb, caçar fora da estação era uma contravenção, um crime aos olhos da população.
- É contra a lei – concordou Atticus – e errado, sem dúvida alguma. Mas quando um homem gasta seus cheques da assistência social em uísque, seus filhos costumam chorar de fome. Eu não conheço nenhum proprietário de terras por aqui que não ceda de boa vontade àquelas crianças qualquer caça que o pai delas consiga pegar.
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by Thiago Bomfim
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Afeminados: assunto delicado
A Livraria pode parecer, aos olhos de muitos visitantes e assíduos leitores, um espaço extremamente contraditório. Nesse blogue, pensam, passeia-se de um inflamado conservadorismo para uma descuidada libertinagem.
Ora, à essa disposição oscilante deveríamos chamar equilíbrio, não contradição. Uma comunidade guiada por conservadores que militam por tradicionalismo, sem dar qualquer motivo além daquele que concerne à manutenção da moral e dos bons costumes, torna-se-á ambiente inóspito para qualquer cristão, inclusive para aqueles que zelam por este espaço tão repressor. Por outro lado, em ambiente onde a libertinagem impera, há pouca diferenciação entre homo sapiens e a animália, condição terrível, embora modernos pensadores prefiram isso à toda responsabilidade dessa nossa racionalidade.
Hoje tratarei de assunto delicado, delicadíssimo, mimoso. Numa determinada passagem do livro de Coríntios, o apóstolo escreve que os afeminados têm estadia garantida no inferno, hospedagem nada amistosa, diga-se de passagem:
Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas (…) 1 Coríntios 6:9
Um aspecto dessa condenação profética me intriga: como definir feminilidade da época de Paulo de Tarso, criador da carta, até os nossos dias? Qual é o critério para a identificação de um rapaz que tende à atitudes que, incorretamente, são definidas como exclusivamente femininas? E por que atividades que eram consideradas adequadas apenas para mulheres hoje são praticadas e incentivadas pelos e para os homens?
Grande exemplo de julgamento injusto acerca da feminilidade é o exercício da leitura de romances românticos. À época da Revolução Industrial, período em que nasce o Romantismo, a produção literária era dedicada às burguesas, senhoras e senhoritas que buscava no mundo dos livros homens idealizados, totalmente diferentes dos broncos maridos e amantes que tinham no lar. O rapaz que fosse pego a se deliciar em alguma leitura de Camilo Castelo Branco, receberia logo o atestado de maricas da impiedosa sociedade. O famoso escritor brasileiro José de Alencar, como reza a lenda, experimentou as suspeitas dos familiares quando foi surpreendido a chorar em uma de suas leituras feitas em voz alta para as analfabetas ouvintes.
Outra questão curiosa é a preocupação que muitos homens hoje têm com a beleza. Se um bárbaro parasse para uma olhada na rotina diária de cuidados e compras dum David Beckham, o que ele acharia? Claro que nem toda a preocupação com a beleza é sinonímia de bom gosto, como no caso do jogador inglês. Veja só o resultado final medonho que excessivos e mal distribuídos cuidados deram à André Valadão e Marco Feliciano! Mas, a questão é: a dedicação de um homem à beleza, rotulado pelo neologismo metrossexualidade, se encaixa na categoria de atitude efeminada?
E os modos franceses, que tanta má fama trouxe aos filhos dos barões do café educados em França: seriam estas regras de etiqueta ,tão bem preservadas entre os homens dessa nação, descuido com a imagem masculina?
Onde eu quero chegar, caro leitor: parece-me que a condenação dos rapazes afeminados é um critério bem subjetivo, uma vez que cada época define o que é feminino à sua moda.
Ressalte-se que aqui tratei apenas da definição cultural e temporal daquilo que é um homem afeminado. Não pisei ainda no terreno minado do assunto da homossexualidade, que demanda muito mais experiência, coragem e bom senso, sem as vociferações impiedosas do fundamentalismo descontextualizado ou o ativismo libertário e sem critérios de uma esquerda extremista.
Termino essa cansativa postagem recomendando que as igrejas recebam bem os rapazes “afeminados”. Receba-os bem, assim como devem receber a qualquer um que entre pelas portas de sua comunidade de fé. Seja amoroso e compreensivo mesmo para aqueles que nem se aproximarem de sua igreja.
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by Thiago Bomfim
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Clarice Lispector não era desse mundo
Depois de sua morte, um amigo escreveu que Clarice era uma estrangeira. Não porque nasceu na Ucrânia. Criada desde menininha no Brasil, era tão brasileira quanto não importa quem. Clarice era estrangeira na terra. Dava a impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há greve geral de transportes.
Do prefácio de uma nova biografia de Clarice Lispector, escrita por um americano.
Essa é uma entrevista histórica de Lispector. É um bom começo para quem quer conhecê-la:
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by Thiago Bomfim
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Por que você lê?
Numa lista em que participo, a Rose Guedes perguntou qual o motivo do interesse dos participantes pela leitura, pedindo que comentássemos algumas preferências. Essa foi a minha resposta:
Eu não sei bem por que eu leio, talvez por costume. Prefiro essa atividade a muitas outras. Um pouco é por culpa da minha mãe que sempre me encheu de gibis quando eu era pequeno. Outro fato curioso é que onde eu morava, numa cidade pequena de Minas Gerais, não tinha energia elétrica, logo várias distrações de uma infância comum não estavam à minha disposição, fui para os livros então.
Ler é importante pra descansar, pra organizar a mente, para aprender e para ter o que falar.
Não concordo na crença de que a leitura é algo sempre positivo. Depende de um conjunto de fatores e da disposição daquele que lê. Outro dia soube que Hitler lia bons livros, mas ignorava tudo aquilo que não fosse útil para reforçar as suas convicções, ou seja, ele não aprendeu nada…
Eu gosto de ler romances e, não tenho vergonha de dizer, livros infantis. A mulher que matou os peixes, um infanto-juvenil da Clarice Lispector, é uma das coisas mais bonitas dessa Terra. Gosto também daqueles poemas espertinhos do Gregório de Matos. Tem o Charles Dickens que também é muito legal.
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by Thiago Bomfim
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Leia os clássicos, esconda os outros
Admira-me ver pessoas que nunca colocaram um Dom Quixote, de Cervantes, diante dos olhos se aventurando em best sellers que nada fazem além de aumentar o vazio da cabeça e do espírito.
Não estou dizendo que todo livro que se lança é uma coisa ruim, estou dizendo que é falta de bom senso jantar um miojo enquanto um belíssimo manjar está à disposição.
Se eu só leio clássicos? Não, mas priorizo este tipo de conteúdo.
Garanto-lhe, amigo, que será prazeroso ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, sabendo que o Pangloss que ali é citado foi nada menos que o mestre de Cândido, defensor caricato da filosofia que afirma que tudo está da melhor forma possível. Filosofia muito propagada nos nossos tempos, quando os governantes insistem em pregá-la em suas respectivas jurisdisções.
O meu conselho não é para que você ostente os clássicos que leu, na verdade comece escondendo a má literatura de suas prateleiras, ao invés de pô-la à vista de todos.
E esse Don Miller aí embaixo? Um clássico, à sua maneira.
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by Thiago Bomfim
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Análise: “Searching for God Knows What” de Donald Miller
Meu gosto por literatura cristã é bem limitado. Admito que li pouco o “subgênero”, mas o pouco que li já foi um bom aviso para que eu não insistisse muito na atividade. Achar boa literatura cristã, hoje, é procurar agulha num palheiro.
É injusto esquecer dos grandes escritores cristãos, não é? Mas verdade seja dita, todo bom escritor, mesmo cristão, soube dar o devido limite à sua obra: a universalidade.
Também não posso chutar o balde e dizer que nada do que se faz hoje é aproveitável. Há aqueles que têm mérito mais pelo pacote do que pelo conteúdo, mas há outros que ainda sabem fazer mágica com palavras. Donald Miller é desses raros artistas que hiptoniza com suas palavras.
Acabei de ler Searching for God Knows What com a sensação de que vai demorar para eu ler algo tão sereno e apaixonante. Não é a minha primeira boa experiência com os escritos de Miller. O mesmo aconteceu com Blue Like Jazz (sim, o dos Pinguins). Mas foi com ceticismo e pouca expectativa que iniciei esta minha última leitura, já que o Fé em Deus e pé na tábua não foi lá grande coisa. Expectativa superada pois, novamente, Miller foi surpreendente.
Mesmo lúdica, a mensagem que o escritor afirma desde o começo é o farol que direciona a escrita. Todo o livro fala basicamente que cristianismo não é fórmula, não é moral, não é teologia, é, acima de tudo, um relacionamento. Como é de praxe, Miller mistura as suas histórias, seus traumas e surpresas, desventuras e alegrias para comunicar essa mensagem de fé baseada em relacionamento. E como faz isso bem! E “fazer bem” não é sinônimo de erudição, ou de retórica bem trabalhada. Donald Miller fala de modo hipnotizante, a deixar o leitor sedento por histórias em sucessão que não cansam. No fundo, o que nos atrai nos escritos de Donald Miller é a intertextualidade que ele faz da nossa vida com a dele.
Já vi muitas críticas acerca de Donald Miller. Uma delas é que ele fica em cima do muro quando fala do lado conservador da igreja. Isso é verdade, Miller não levanta bandeira nos seus livros e isso é extremamente positivo, pois é característico dele literatura leve, bem humorada. Tomar partido de velhas brigas só prejudicaria aquilo que ele faz tão bem.
Há bons momentos em várias partes de Searching for God Knows What, mas o paralelo entre o relacionamento de Romeu e Julieta e o nosso com Cristo encerra esta obra com muito bom gosto. É livro que deixa a sensação de quero mais.
Pena que, mais uma vez, a editora escolheu mal a temática da capa. Dessa vez não foi aqui, com Pinguins, mas lá, com o circo. Diga-se de passagem, o trecho que narra a experiência de Don Miller no circo é um pouco tedioso. Ainda mais triste é o fato de que o livro não está disponível em português.
Como aperitivo, deixo um trecho do capítulo dez, em tradução livre, para os leitores da Livraria. É só o Donald Miller, contando histórias dos outros:
Meu pastor e amigo, Rick McKinley, contou-me recentemente sobre um encontro que ele teve com um jovem pastor que estava plantando uma igreja numa outra cidade. No vai e vem da conversa, este pastor perguntou ao Rick qual era a hora de tirar da liderança uma pessoa que estivesse com dificuldade de compreender a natureza do ministério. Rick olhou meio confuso para aquele pastor. “Tirar da liderança ?”, perguntou. “Isso.” , o jovem pastor respondeu. “Temos que avançar, né? E se a pessoa não acompanha precisamos tirá-la.”Rick respirou e riu “Cara, seu eu fosse tirar todo mundo que não conseguiu acompanhar o início da Imago Dei, não sobraria ninguém, nem eu! Você nunca vai construir uma igreja mandando as pessoas embora. Isso não é uma lanchonete, é o reino de Deus, e bons discípulos demandam tempo. Jesus é paciente até o fim.”









