Blogueiros, valorizem o português

Acabei de visitar um blog medonhamente escrito. Ininteligível! Eu sei, amigo, não se deve exigir que uma página de internet siga o rigor da produção machadiana, mas, convenhamos, que no mínimo se siga uma lógica de compreensão. Até minha sobrinha faz isso!

Não estou criticando o nível de linguagem popular, usando o coloquial, a glorificar o culto. Estou apenas constrangido de ver a nossa língua tratada como um instrumento para dizer coisa nenhuma.

Prefiro silêncio a ruído.

Opinião final acerca de Caim, o novo livro de José Saramago

Terminei de ler Caim, o novo livro de José Saramago. Uma boa leitura, necessária para qualquer um que ainda tem esperanças quando vai a uma livraria desejoso de comprar algum título em que a língua portuguesa seja a protagonista.

A polêmica toda em volta do livro, arquitetada ou não, é secundária para o leitor que já conhece Saramago e que se arriscaria na compra do volume, indiferente às críticas que saem nas revistas e jornais.

Infelizmente é um livro que repete uma fórmula narrativa do começo ao fim. O inusitado e a surpresa servem só uma vez. Depois dos primeiros capítulos, Caim se aventura numa sucessão de episódios com desfecho semelhante; só mudam lugar e personagens. Ou seja, tudo o que é interessante nas primeiras páginas, torna-se previsível no restante.

Por outro lado, a enumeração repetitiva das aventuras de Caim – com todas as semelhanças duma história para a outra – serve para reforçar a visão distorcida de Saramago acerca da maior religião ocidental e o seu principal representante: o Criador.

Recomendo essa leitura ao visitante da Livraria. Conheço o público que aqui vem sempre, e isto me é suficiente para saber que farão bom proveito da obra.

Tradução: MUTEMATH – The Nerve

Tradução da música “The Nerve” da banda MUTEMATH numa de suas estimulantes performances corriqueiras. O vídeo foi gravado num show feito no Japão.

A música foi uma das primeiras do disco Armistice divulgadas .

MUTEMATH: The Nerve – com legendas traduzidas em português/portuguese

Troque o seu livro de autoajuda por um bom romance

Os livros de autoajuda são os mais vendidos. Estão sempre nos primeiros lugares das listas. Mas é  curioso perceber que ninguém está mais rico ou feliz lendo esse tipo de “literatura”. Pelo contrário, quanto mais leem esse gênero de escrita, mais as pessoas  se afundam num abismo de falsas esperanças e ilusões.

Não faço um veredicto dizendo que nenhuma leitura pode ser útil para a reflexão e mudança de atitudes. Há bons livros que discutem bem os problemas e angústias da vida. Entretanto, diferente do que faz os best sellers de self improvement, uma boa obra, como um romance clássico, apenas dá contorno a uma angústia que é de todos. Uma inquietação é externalizada para que se tome ciência de um mal comum.

E amigos, não há passos para resoluções de todos os percalços da vida. Alguns incômodos podem até ser superados, mas sem fórmulas mágicas, sem caminhos pré definidos.Há apenas um início aceitável: a noção da realidade. Ela é o melhor remédio para o homem, o único passo para a ciência de que há um problema.

Apego-me aos romances. Eles investigam a alma, pensamentos: raiz de toda a dor e inquietação. Mesmo os romances de ficção são espelhados nas questões da realidade, e por isso despertam o incomôdo que só um espelho pode produzir.

Faço aqui uma pequena lista com assuntos específicos, como se fosse aquela famosa prateleira com a etiqueta de autoajuda, só que com bons clássicos da literatura universal:

Felicidade conjugal

  • Madame Bovary – Gustave Flaubert
  • O primo Basílio – Eça de Queirós
  • Dom Casmurro – Machado de Assis

Bem estar espiritual

  • Da tranquilidade da alma – Sêneca
  • Anatomia de uma dor – C.S. Lewis

Finanças

  • Cândido ou o otimismo – Voltaire

O absurdo duma crença que não resolve os nossos problemas

Tenho uma mentalidade cristã. Os valores dele [do cristianismo] estão em mim empapados.

Eu só penso em Deus para criticá-lo, para tentar mostrar o absurdo duma crença que não resolve os nossos problemas, que promete para não se sabe quando.
Ou felicidade eterna, ou castigo eterno: este é outro absurdo. Que crime podemos nós cometer, ou faltas, para que sejamos castigados por toda eternidade no inferno? Isso é absurdo! Nenhum deus inventaria isso, é preciso uma cabeça humana para inventar todas essas coisas.

José Saramago, num comentário sobre o livro Caim

O novo romance, Caim, de José Saramago promete muito. O velho escritor do Ribatejo inverterá todas as concepções mais comuns acerca dos sacríficos de Abel e Caim e do assassinato mais famoso da história.

O primeiro livro dele que li foi Ensaio sobre a cegueira. Fiz a leitura com um pé atrás, afinal não confio muito em escritos de pessoas vivas, ou de mortos que ditam a pessoas com dons específicos para a captação. Mas ler Saramago foi diferente. Não foi amor à primeira vista, já que achei o modo de escrita dele um tanto que esquisito. Seus parágrafos lembravam muito meus textos no início da faculdade, antes do crivo impenetrável da professora de redação.

Há pouco tempo li A viagem do elefante, que achei tão bom quanto o outro. Nesse lê-se um escritor espirituoso, que ri da vida numa cama de hospital – o livro foi escrito na sua época de doença. Não falta, como é de costume, as “alfinetadas” religiosas; suavizadas, entretanto.

Agora fico a pensar se Saramago é de verdade um ateu. Eu também descreio de boa parte das coisas que ele declara não crer. Acerca da existência de Deus eu não me preocupo mais, pois se for fato, independe da minha fé. Posso ter alguns problemas do ponto de vista teológico, já que crer é critério salvífico essencial para algumas linhas de pensamento.

Veja bem, não digo que sou ateu. Se fosse, o exercício de visitar uma comunidade cristã, como faço com certa frequencia, seria uma verdadeira idiotice.

Mas tenho sérias dificuldades de compreender o deus da maioria.Este me parece o próprio mal. Não posso simplesmente eliminá-lo da minha mente, pois está aí a agir, aprisionando pensamentos, justificando maldades.

O Deus chamado bom parece-me às vezes distante demais. Mas longe não é sinônimo de inexistente. Mas esse possível afastamento silencioso seria por culpa e negligência nossa, ou por descaso dele? Prefiro acreditar na primeira hipótese, amigo. Um Deus que ignora o mundo do modo que está não me parece muito bom.

Há hora pra tudo, até para Machado de Assis

Fotos de Machado de Assis na Rua do Passeio 90 Machado de Assis é perigoso. Lê-lo na hora errada pode provocar asco. É o que acontece com boa parte dos estudantes do Ensino Médio. O querido professor, guiado pelo currículo padronizado pelo governo, inclui a leitura de Dom Casmurro na lista de livros obrigatórios das aulas de Português ou das de Literatura.

Mas não há remédio, a leitura desse escritor brasileiro é nociva a qualquer momento. Depois de conhecida sua obra, torna-se tedioso ler qualquer outro escritor brasileiro, vivo ou morto.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, torna-se a pior amargura para os olhos depois que se conhece a misteriosa Capitu. E é nisso que estou a penar: lendo a prestativa e carinhosa índia, enquanto penso na descontraída e intrigante amada de Betinho.

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