Confissões de São Thiago

Ano Novo é um momento em que as pessoas se aproveitam do simbólico recomeço para rever as atitudes tentando melhorar alguma coisa. Como este blogue é um adepto dos clichês, assim como eu, não há de fugir a essa regra.

Eu ando contaminado por várias influências erradas do meio cristão: cultura, idéias e bobeiras. E vocês não tem noção de como isso é prejudicial para mim e para vocês que insistem na visita esporádica desse site. Conversava com uma pessoa da minha família que o fato de eu não ir na igreja, além dos compromissos escolares que não poupam nem o final de semana, era o estado de espírito em que me encontrava ao término das reuniões: estava cansado, farto e profundamente irritado com certos desvios de discurso em oposição à prática.

Creio que não é adequado exigir de outros uma conduta impecável. Para ser sincero eu não me irrito nenhum pouco com condutas irresponsáveis, pois a minha funciona dessa maneira. O que me tira do sério é o discurso que exige perfeição vindo de um orador que nem se preocupa com o conceito de “perfeito”. Devo ser justo e dizer que nem todos os casos se enquadram na moldura acima. Testemunhei uma bela exceção na última comunidade que freqüentei, que tinha à frente dela um pastor guiado por uma sinceridade que alguns julgavam extremada.

Entretanto, para uma pessoa como eu, contaminada por uma má disposição, o mais inocente deslize pode despertar uma raiva acumulada de experiências desagradáveis em comunidades cristãs que foram ambientes prejudiciais. Outro fator relevante para a minha indisposição com a comunhão dos santos é o fato de que estive por aí com várias comunhões – não muito santas, é verdade – que me fizeram muito bem. Posso dizer que a graça está por todo canto, no meio da desgraça que é o mundo e a vida.

Isso pode parecer uma bela desculpa de um vagabundo que não está querendo compromisso com igreja e talvez seja exatamente isto. Mas eu penso que é essencial que os leitores daqui estejam cientes da disposição do blogueiro para que não exijam dele algo que ele nunca mencionou que estava à disposição.

Por fim, algo que me desagrada muito é o meu ego que é como espelho do ego de todos nós. Vejo algo que fiz de modo mesquinho se voltando do mesmo modo contra mim de pessoas que até admiro. Não exijo deles outro comportamento: cada um tem a sua consciência transformada pelo Espírito que transcende toda a nossa moral e etiqueta. Há uma opção que é a mais viável e confortável para todos e que só depende da minha vontade: deixar de ouví-los. E foi isso que fiz: exclui do meu leitor uma série de feeds de blogs de cristãos, dei um unfollow em alguns profiles e fiz alguns bloqueios nos comunicadores.

No momento, é provável que alguns já estejam pondo o rótulo de “infantil” neste ato. Podem pensar desse modo, desde que seu pensamento não chegue aos meus ouvidos. Na Bíblia há uma bela metáfora que pede que nossos olhos sejam removidos, se eles nos trazem razão para o pecado. E é isto que estou fazendo: tapando olhos e ouvidos para aquilo que,  ao alcance dos sentidos, pode virar cólera no Thiago. Uma atitude ruim a menos talvez signifique alguma coisa nas contas celestiais que me prometem um tal “galardão”.

Quando eu sei se vale a pena ou não ler uma revista

A Patrol Magazine é uma revista interessante. Não compactua com o messianismo americano e não tem medo de falar a verdade. Conheci o site quando pesquisei algumas coisas sobre o novo disco do Derek Webb.

Minha decisão final para a leitura dessa revista encontrei nessa cara de pau de dar a nota 5,5 para o novo disco do David Crowder Band, Church Music, enquanto Stockholm Syndrome, de Derek Webb recebeu 9,4.

Quando alguém valoriza mais conteúdo que melodia chicletenta, merece um pouco de credibilidade.

Recomendo mesmo.

Se Saramago fala de um deus que você diz seguir, certamente precisas de outro

A ideia de que a pior a gente portuguesa colonizou o Brasil é, em parte, equivocada. Lá nos tempos em que Portugal ainda era a metrópole, considerava-se crime, a torto e a direito, tudo o que contrariava a monarquia e a santíssima igreja. Uma falta peculiar estava no ato de seguir a religião judaica. Havia apenas um perdão para a falta considerada gravíssima, digna de degredo por nossas terras: a conversão ao cristianismo.

E o Tribunal do Santo Ofício não pensava duas vezes antes de mandar o pobre infiel para sofrer nas terras selvagens, carinhosamente colonizadas. E do Brasil se fazia a pior propaganda, como hoje se faz do Oriente Médio, descrevendo-o como terra insólita de condições de sobrevivência e conforto impossíveis.

Mas isso foi há muito tempo, não é amigo? Hoje a liberdade de expressão e de culto permite-nos viver e propagar diferentes ideologias, sem que estas sejam consideradas crimes contra o Estado e contra a necessária religião, concorda? Engano nosso. Pois não é exatamente lá no velho mundo que os velhos costumes são desenterrados, em defesa da imaculada fé e do controle da caneta de velhos escritores galhofeiros!

Irritado com as recentes declarações do escritor José Saramago, um tal Mário David, deputado lá na outra ponta do Atlântico, “aconselhou” ao premiado escritor que deixe de ser cidadão português. Isso mesmo que estás a ler: uma espécie de degredo voluntário, para o “crime” de ateísmo. more »

Grifo de leitura: Caim – José Saramago

A eva e adão ainda restava a possibilidade de gerarem um filho para compensar a perda do assassinado, mas bem triste há-de ser a gente sem outra finalidade na vida que a de fazer filhos sem saber porquê nem para quê. Para continuar a espécie, dizem aqueles que crêem num objectivo final, numa razão última, embora não tenham nenhuma ideia sobre quais sejam e que nunca se perguntaram em nome de quê terá a espécie de continuar como se fosse ela a única e derradeira esperança do universo. Ao matar abel por não poder matar o senhor, caim deu já a sua resposta. Não se augure nada bom da vida futura deste homem.

SARAMAGO, José. Caim. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 37.

Como os cristãos pensam e como as pessoas normais pensam

Essa é uma imagem velha de um Moleskine meu. É uma denuncia da minha falta de habilidade para o desenho, chegando a ser uma afronta para aquelas belas folhinhas cor de creme.

Como os cristãos pensam e como as pessoas normais pensam

Sexiest Church

Recebi uma notícia que me deixou em êxtase perplexo  outro dia. O meu antigo líder, daquela comunidade cristã, assemelhada a um clube de investimento celestial subdividido em tribinhos de 12 pessoas, engravidou uma mocinha. O êxtase não foi em comemoração à paternidade do sacro “ministro de louvor”. Foi mais uma espécie de celebração à eficácia do sistema reprodutor: não tem jeito, óvulo com espermatozoide vai sempre resultar num pequerrucho.

Mas o estranho desse encontro zigotal, e do outro anterior, que permitiu a circulação dos insumos corporais, foi as circunstâncias na qual ele se realizou. O rapaz, avesso à qualquer relação sexual que não fosse autorizada num pedaço de papel, fez exatamente o contrário do seu discurso. Viajou para uma cidade lá no sul do Brasil, encontrou uma mocinha bonita e resolveu demarcar o território e por em uso compartilhado o seu assanhado membro, outrora acostumado a carícias estritamente manufatureiras. Ironia do fundamentalismo: divulga-se o discurso, prevalecem as vontades. more »