Derek Webb: Como devemos votar ?

Kassab e Dilma Esse é um texto que o Derek Webb publicou às vésperas – um dia antes, para ser mais exato – das eleições americanas que elegeu o atual e, segundo a opinião de muitos, decepcionante presidente Obama. Há várias coisas que não estão no contexto do voto obrigatório a que estamos submetidos no Brasil, mas que são devidamente aplicáveis num voto nulo, numa justificativa fora do domicílio eleitoral, ou numa brincadeira à cabine eleitoral no feriado de Outubro, ainda mais num previsível segundo turno tucanos contra petistas.

Recomendo a leitura desse texto, que, na minha opinião, é um dos melhores artigos dessa década feito por um cristão, especialmente nesse tópico que é a política. Webb considerou este discurso tão essencial que o distribuiu gratuitamente com o disco Mockingbird Elections Edition, uma edição especial de sua obra prima acompanhada desse discurso lido por ele mesmo.

Como devemos votar então?

Parte 1: Uma breve afirmação no que diz respeito à consciência

Dependendo da época em que você está lendo isso, poderemos estar em qualquer lado de uma das eleições mais memoráveis na história recente do nosso país. Mas isso não importa, tendo em vista que este texto não se refere necessariamente à nossa atual eleição, e sim sobre como viver uma vida política honesta e íntegra. Ainda assim, não há tempo para sábias histórias ou introduções. Vou direto ao ponto: essencialmente, nossos problemas não serão resolvidos por um homem ou mulher éticos na Casa Branca. Não é bem assim que as coisas funcionam. Vivemos em uma democracia, uma forma de governo representativo, em que a nossa responsabilidade de amar e cuidar de nosso próximo é a mesma, senão maior. A mudança verdadeira e duradoura vem de conhecer e amar as pessoas que vivem nas casas ao lado da nossa, ao invés de depositar toda nossa expectativa e esperança na cabine de votação.

Entretanto, isso não quer dizer que não devemos tomar decisões com base em informações ao se envolver com o processo. Pelo contrário: se a sua consciência te permite, você pode até votar. Mais isto é muito complicado, especialmente numa escolha entre dois partidos* (e eu definitivamente não tenho tempo para isso).

Com toda a seriedade, quero ser muito claro nesse ponto: nunca é aconselhável, em qualquer decisão que você faça, violar sua consciência. Isso se aplica à essa eleição em que você poderá ter sérios conflitos morais com ambos candidatos, fazendo com que você se sinta como se estivesse votando de maneira defensiva ou para eleger o menor dos males.

Antes de ir além, deixe-me avisar que este pode não ser o seu caso. Além disso, entre o corpo de Cristo, poderia ser até pecaminoso se chegássemos às mesmas conclusões sobre como amar o nosso próximo melhor, por isso, há plena liberdade para opiniões diferentes sobre este assunto. Mas se estás nessa situação, eu tenho algumas sugestões:

1. Procure na sua bíblia algo que diga que você deve votar.

2. Se você não encontrar nada, ouça o que a sua consciência te diz. É para isso que ela está lá: para ser um guia e um farol vermelho quando você precisa tomar decisões significantes e difíceis.

Veja bem, não estou dizendo que você não deve votar.

Estou dizendo que, se a sua consciência está num conflito muito grande entre dois candidatos, você tem a liberdade de não votar.

Parte 2: Algumas objeções esperadas

Alguns podem dizer que não votar é dar o voto para aqueles que buscam usar o processo governamental com más intenções. Eu na verdade poderia argumentar de maneira completamente diferente. Ao votar, especialmente entre uma ou duas opções, você está dando um ‘sim’ e um ‘amém’ para a plataforma completa de um partido, o que provavelmente vai muito além da afirmação que você tentou fazer. Isto é ainda mais perigoso e menos nítido do que abster-se por completo. Nenhum partido poderá cooptar um voto que não foi dado.

Outros diriam: ‘Jesus disse “Dai a César o que é de César”, logo temos uma obrigação bíblica de voto.’ Claro que Jesus disse isso. Por isso eu pago os meus impostos e tento dirigir dentro dos limites de velocidade. Estas são algumas das leis dessa terra. Mas a minha consciência não pertence a César, por isso não compactuo com ele. César não pode me obrigar a violar a minha consciência. Votar é um direito legal, como carregar uma arma ou fazer um aborto, mas eu posso me abster de fazer qualquer coisa que, mesmo tendo direitos legais para realizar, contrarie minha consciência.

Alguns podem dizer que nós nunca iremos concordar por completo com a agenda ou plataforma política de alguém, desse modo, a espera por um candidato que se alinhe por completo com as nossas opiniões torna o voto impossível. Concordo completamente. Há muitas coisas sobre as quais eu posso discordar com um político que não correspondam necessariamente à uma crise de consciência. Portanto, há compromissos necessários e aceitáveis para o engajamento dentro de um sistema político, mas nunca quando eles passam por cima do cadáver de sua consciência.

Isto me leva à última objeção previsível: os nossos antepassados lutaram e até derramaram sangue para que nós tivéssemos o direito de votar. Mesmo que não haja nada óbvio nessa afirmação com que eu discorde, há um contexto a se considerar. Ainda maior que os sacrifícios dos nossos antepassados foi o sacrifício de nosso Pai celestial, que derramou seu sangue para despertar para ele uma fidelidade ainda maior do que a que damos à nação. Nós temos uma aliança eterna com o nosso Rei e o seu Reino que se constrói em nós e por meio de nós, superando qualquer outro compromisso.

No início da década dos anos 20 do século XVI, Martinho Lutero esteve notadamente de frente à uma assembléia na Alemanha, iniciando aquilo que conhecemos como Reforma Protestante. Em seu lendário discurso, Lutero se expôs à excomunhão e à morte para não trair a sua consciência ao dizer “Ir contra a consciência não é certo nem seguro. Não posso, nem irei me retratar. Eis-me aqui. Não posso fazer outra coisa. Deus me ajude.”

Estas questões de consciência são sérias e devem ser  consideradas. Tenho muitos amigos que estudaram as possibilidades dessa eleição em todos os aspectos e escolheram votar ou em Obama, ou em McCain, ou num outro candidato, e eu os apoio nisso. Reafirmo: somos diversos membros de um só corpo que segue a Jesus. Desconfiável seria se todos chegássemos às mesmas conclusões para problemas tão complexos. Novamente: talvez não haja conflitos de consciência para você nessa eleição, com todas as opções disponíveis. Mas se existe, sinta-se livre para não votar.

Nossa maior esperança não está nos políticos, nos poderes, ou no governo, mas num dia que virá para consertar todas as coisas. Nossa principal preocupação não é o sucesso, mas a fidelidade. Logo, se você acha necessário se abster do voto nessa eleição porque isto seria uma traição para a sua consciência, seja livre para permanecer fiel deixando a preocupação do sucesso e resultado para Deus. Ele, afinal de contas, foi quem criou os governos.

Nota de tradutor meia boca

Percebi que minha tradução para What Matters More do , especificamente o trecho polêmico da citação do pastor Tony Campolo, correm soltos pela internet. Admira-me o fato de ninguém ainda ter notado um pequeno tropeço de tradução amadora. Eis minha desculpa explicação, para o suposto erro:

“Give a shit” é uma expressão idiomática  de conteúdo chulo que pode ser compreendida no português como “não está nem aí, não liga, não dá a mínima”. Traduzido desse modo para a nossa língua, a segunda parte da citação de Tony Campolo, perde o sentido. Preferi então adaptar com a frase “nunca ajudaram em merda nenhuma”, assim os polêmicos versos têm “pé e cabeça”.

Para os que não conhecem o vídeo e a profética e constrangedora verdade que Campolo lançou à cara, deixo aqui o trechinho da discórdia, e o vídeo com comentários atualizados:

“Enquanto você dormia ontem, 30000 crianças morreram de fome ou de doenças relacionadas a má nutrição. E mais, a maioria de vocês nunca ajudaram em merda nenhuma. E o que é pior: você está mais perturbado com o fato de eu ter dito “merda” do que com a notícia de que 30000 crianças morreram de fome na última noite.”

Mensagem de um profeta e de um louco acerca de justiça

Não canso de rasgar seda para o Derek Webb nessa Livraria. No seu último disco, Stockholm Syndrome, o compositor escreve uma música muito interessante acerca de lei versus justiça. O assunto é recorrente na música de Webb, mas é na canção The State que ele tornou ainda mais explícita a sua preocupação com o tema. O trecho da letra necessário para essa discussão é o seguinte:

O certo e o errado foram escritos no meu coração, e não pelas leis que me condenam
Mas agora, com César satisfeito, posso ainda fazer as coisas que me ofendem

Estou a ler um teatro de Albert Camus que conta a história do imperador Calígula. O César foi conhecido por sua loucura e crueldade. Entretanto, há verdades que só os loucos e profetas têm coragem de nos dizer. Veja o que o ditador disse acerca da estreita ligação entre governo e roubo:

Notem, que não é mais imoral roubar diretamente os cidadãos, do que aplicar furtivamente impostos indiretos no preço dos gêneros de primeira necessidade. Governar é roubar, todo o mundo sabe. Mas há o jeito. Por mim, roubarei às claras. Vamos deixar de misérias.

As citações acima, de Webb e de Calígula, leva-me a refletir: será que um governo ditador que confisca a propriedade de alguns é menos justo que uma política que cobra impostos do arroz e feijão de segunda linha de um miserável?

Sexiest Church

Recebi uma notícia que me deixou em êxtase perplexo  outro dia. O meu antigo líder, daquela comunidade cristã, assemelhada a um clube de investimento celestial subdividido em tribinhos de 12 pessoas, engravidou uma mocinha. O êxtase não foi em comemoração à paternidade do sacro “ministro de louvor”. Foi mais uma espécie de celebração à eficácia do sistema reprodutor: não tem jeito, óvulo com espermatozoide vai sempre resultar num pequerrucho.

Mas o estranho desse encontro zigotal, e do outro anterior, que permitiu a circulação dos insumos corporais, foi as circunstâncias na qual ele se realizou. O rapaz, avesso à qualquer relação sexual que não fosse autorizada num pedaço de papel, fez exatamente o contrário do seu discurso. Viajou para uma cidade lá no sul do Brasil, encontrou uma mocinha bonita e resolveu demarcar o território e por em uso compartilhado o seu assanhado membro, outrora acostumado a carícias estritamente manufatureiras. Ironia do fundamentalismo: divulga-se o discurso, prevalecem as vontades. more »

Tradução e legenda: Derek Webb – What Matters More

Letra em PDF

Letra original (Inglês)

Tradução: Derek Webb – The State

Oh, I was free to live and love
And kill as I saw fit
I was at peace, there really was
No one I was at war with

The only common good
Was that we understood
That laws unjust were only good for breaking
That difference legalized instead of sameness
Left nobody free
But that was the day before I married my conscience to the state

My taxes paid these roads we laid
To places of my choosing
There were no eyes up in the skies
Looking down into my bed

There was no government
Without our consent
And keys were made for anyone who just claimed it
And glass was all of every wall that framed it
From sea to shining sea
But that was the day before I married my conscience to the state

Right and wrong were written on my heart and not just in the laws that condemned me
But now with Caesar satisfied I can even do the things that should offend me

O Estado (The State) – Derek webb

Ah! Eu era livre para viver e amar
Matava quando necessário
Estava em paz, não declarava guerra
Com ninguém

Um bem comum;
Entendíamos que
Aquelas leis injustas eram boas apenas para desobedecermos;
A diferença legalizada ao invés da igualdade
Não fazia ninguém livre
Mas, pensava assim antes do casamento da minha consciência com o Estado

Meus impostos pagaram estas estradas que abrimos
Para os locais que escolhi;
Não havia olhos que do alto
Vigiavam a minha cama

Não havia governo
Sem nosso consentimento
E propriedade só existia apenas para aquele que a reivindicava
E de vidro era toda a parede que envolvia
Os quatro cantos do mundo
Mas isso era antes de eu casar minha consciência com o Estado

O certo e o errado foram escritos no meu coração, não pelas leis que me condenam
Mas agora, com Cesar satisfeito, posso até fazer as coisas que me ofendem